sexta-feira, 31 de julho de 2026
A Copa do Mundo pode deixar de ser do futebol
31/07/2026

A proposta apresentada pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, para vender 20% da nova empresa que concentrará os direitos comerciais da Copa do Mundo e de outras competições representa muito mais do que uma operação financeira. Ela abre caminho para que o maior patrimônio do futebol mundial passe a conviver com interesses privados e investidores cujo objetivo principal será obter retorno sobre o capital aplicado. A análise foi publicada pelo The New York Times.

O plano prevê a criação de uma subsidiária responsável por administrar direitos de transmissão, patrocínios, venda de ingressos e demais receitas dos torneios da FIFA. Essa empresa permaneceria com 80% sob controle da entidade, enquanto os outros 20% seriam vendidos por cerca de US$ 4,2 bilhões a um grupo de investidores liderado pela Thrive Eternal, empresa fundada por Joshua Kushner. Em troca, as 211 federações nacionais receberiam um volume inédito de recursos, chegando a US$ 40 milhões nos próximos quatro anos caso aprovem a proposta.

À primeira vista, a oferta parece irresistível. Afinal, quem recusaria quadruplicar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol? É exatamente nessa lógica que reside a principal preocupação. A FIFA está oferecendo um ganho imediato em troca de um compromisso que poderá afetar as receitas e os rumos comerciais da Copa do Mundo durante muitos anos.

O futebol sempre foi um grande negócio. Clubes, ligas e federações movimentam bilhões de dólares. A diferença é que, até aqui, a Copa do Mundo permanecia integralmente vinculada à própria FIFA. Com a entrada de investidores privados, cria-se uma nova realidade: o principal evento esportivo do planeta passa a dividir seus interesses com o mercado financeiro.

Também chama atenção a velocidade com que a decisão está sendo conduzida. As federações têm poucas semanas para aprovar uma mudança estrutural que pode redefinir o futuro da entidade, sem que questões fundamentais estejam plenamente esclarecidas, como a duração dos direitos dos investidores, os mecanismos de governança e os limites de sua influência sobre os negócios da FIFA.

Os críticos do projeto lembram que operações semelhantes realizadas em outras modalidades esportivas costumam beneficiar, sobretudo, os fundos de investimento. Eles injetam grandes quantias no presente, mas passam a participar de receitas futuras que, ao longo dos anos, frequentemente superam com folga o valor inicialmente investido.

É justamente por isso que a discussão ultrapassa o aspecto financeiro. A questão central não é apenas vender uma participação em uma empresa. É definir quem controlará, no futuro, a exploração econômica do maior espetáculo do esporte mundial. Quando investidores privados passam a ter participação direta nesse patrimônio, a pergunta deixa de ser apenas quanto vale a Copa do Mundo.

A pergunta passa a ser outra: a quem ela realmente pertencerá daqui para frente?

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