João Pessoa, sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Cem dias após os terremotos na Venezuela, população ainda vive impacto emocional e incerteza
02/10/2026 16:47
Redação ON Reprodução

Cem dias após o duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho, as necessidades da população atingida mudaram significativamente. O que começou como uma resposta focada em salvar vidas e atender traumas físicos transformou-se em uma crise marcada pelas consequências prolongadas da incerteza, do deslocamento e do impacto emocional acumulado sobre as pessoas e as comunidades.

Desde as primeiras horas após o desastre, as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) responderam às necessidades médicas urgentes, apoiando os hospitais que recebiam um elevado número de pessoas feridas e distribuindo 8,5 toneladas de suprimentos médicos e de emergência durante os primeiros cinco dias da resposta. No entanto, cem dias depois, as necessidades mais urgentes já não são apenas derivadas das lesões físicas causadas pelos terremotos. 

“Eu estava em um prédio que desabou. Fiquei sob os escombros e pensaram que eu estava morta quando me tiraram de lá. Só lembro que estava correndo e caímos com força, no abismo”, relata Elvira, de 76 anos, sentada no consultório onde recebe atendimento psicológico com MSF. “Cheguei aqui em estado de crise. O que eu vivi não é fácil. Tudo me assustava, eu chorava muito, não dormia. A psicóloga me ajudou a superar o nervosismo. Quero sair do que estou passando. Quero voltar a ser quem eu era.”

O peso físico do estresse prolongado

Nas comunidades afetadas de La Guaira e Caracas, muitas pessoas continuam vivendo com o medo constante de novos tremores, a incerteza sobre o acesso a uma moradia segura e a dificuldade de retomar suas rotinas e meios de subsistência.

Essa situação prolongada transformou o impacto emocional inicial em quadros persistentes de ansiedade, alterações do sono, sintomas físicos relacionados ao estresse, sentimentos de desesperança e um esgotamento generalizado que afeta indivíduos e comunidades inteiras.

“O que observamos hoje não é apenas o efeito de um evento traumático isolado, mas o impacto acumulado de viver durante meses em condições de incerteza. Muitas pessoas chegam às consultas com dores musculares, dores de cabeça recorrentes, problemas gastrointestinais ou insônia, sintomas que frequentemente refletem um sofrimento emocional e psicológico significativo”, afirma Milagritos Valderrama, coordenadora médica de MSF para a resposta à emergência.

Nesses cem dias, MSF já realizou mais de 7 mil consultas médicas. Entre os problemas de saúde mais frequentes atendidos pelas equipes, estão as dores musculares e ósseas, que representam 21,7% das consultas, seguidas pelas infecções respiratórias, com 21,4%, e pelas doenças de pele, com 12,4%. 

Além disso, as equipes médicas já acompanharam mais de 880 casos de doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes, asma e epilepsia, condições que costumam se agravar devido ao estresse e às duras condições do deslocamento.

“Isso me desmoralizou. Foi um desastre natural, mas destruiu tudo, meu coração, minha mente e minha alma. Tenho problemas cardíacos e hipertensão, e não durmo”, explica Ashley Mayora, de 43 anos, sentada dentro de sua barraca em Mare Abajo, um conjunto habitacional que desabou parcialmente após o duplo terremoto. “Eu morava com a minha filha e o meu neto recém-nascido na minha casa… eles são a minha vida. Quando isso aconteceu, eu estava em uma barraca onde só cabia eu, então tivemos de nos separar. Sinto que estava morrendo de tristeza por não estar com meu neto. No dia 29 de julho, tive um pré-infarto. Só estou viva por eles.”

O desgaste da linha de frente

“Minha esperança era encontrar pessoas com vida, mas o que encontrei foram corpos”, compartilha Israel Lanza, de 36 anos, socorrista da Defesa Civil. “O que mais me marcou foi encontrarmos o corpo de um cachorro, abraçado por uma senhora e seu filho. Os braços deles estavam ao redor do animal, e todos morreram. Até a pessoa mais corajosa chora diante disso. Chegou um momento em que eu esquecia meu próprio nome. Não reconhecia quando me chamavam. Passei 15 dias seguidos sem voltar para casa.”

Quem esteve na linha de frente da resposta também enfrenta suas próprias consequências emocionais. Profissionais de saúde, equipes da Defesa Civil, socorristas e voluntários sustentaram uma intensa carga de trabalho enquanto acompanhavam o sofrimento de suas próprias comunidades. A fadiga extrema, o estresse traumático secundário e os processos de luto acumulado tornam-se cada vez mais evidentes entre os trabalhadores essenciais, cuja saúde mental é fundamental para manter a capacidade de resposta e recuperação das áreas afetadas.

“Lembro que, no sexto dia, me sentia completamente esgotado. Precisei parar. Pensei em pedir demissão, dizia a mim mesmo que não conseguia mais. Parte da minha família mora aqui em La Guaira e passei 12 dias sem ter notícias deles”, conta Elvis Díaz, de 28 anos, socorrista da Defesa Civil. “Quando tomava banho, chorava. Tudo se acumulou. Eu já não sabia nem o que carregava dentro de mim. Fazia isso quando estava sozinho para que ninguém me visse, para não incomodar meus colegas, porque todos estamos passando pela mesma situação.”

Uma resposta multidisciplinar em campo

Para atender a essas necessidades, equipes multidisciplinares de MSF continuam oferecendo atendimento médico por meio de seis clínicas móveis em Caracas e La Guaira, integrando apoio em saúde mental e psicossocial aos serviços de atenção primária. A essa rede, somam-se ainda quatro locais exclusivos para atendimentos de saúde mental. Essa integração permite abordar simultaneamente as necessidades físicas e emocionais das pessoas afetadas, reconhecendo que essas duas dimensões estão estreitamente relacionadas e são essenciais para uma recuperação integral.

Ao longo desses cem dias, as equipes de saúde mental de MSF acompanharam 8.147 pessoas nas comunidades afetadas de La Guaira e Caracas, oferecendo atividades coletivas de psicoeducação, consultas individuais e sessões de primeiros socorros psicológicos. Além disso, as equipes de promoção da saúde da organização alcançaram mais de 16.792 pessoas através de sessões educativas e trabalho direto nas comunidades.

Para prevenir surtos epidemiológicos nos assentamentos temporários, equipes de água, saneamento e higiene distribuíram cerca de 860 mil litros de água potável e instalaram infraestrutura essencial, incluindo cinco sistemas de tratamento de água e 127 filtros. Também forneceram cloro e insumos suficientes para tratar mais de 80,5 milhões de litros adicionais de água.

Reconstruir a estabilidade

À medida que a resposta avança para a fase de recuperação, com o passar do tempo as necessidades de saúde mental tendem a se tornar mais evidentes. Nos abrigos e comunidades, a dor da perda convive com a organização coletiva e o apoio mútuo.

Rosmari Colmenares, representante de sua comunidade em Playa Grande, La Guaira, cuja casa ficou gravemente danificada e precisou ser demolida, descreve o peso da ausência e da incerteza:

“O mais desgastante é que, até hoje, não sabemos nada sobre meu irmão. O prédio onde ele morava caiu; a esposa dele pôde ser resgatada, mas ele e seu filho, que tem síndrome de Down, não foram encontrados. O corpo da minha sobrinha, sim, foi encontrado”, relata.

“Eu vi o jeito que demoliram minha casa; meu filho me abraçou e nós choramos. Tantos anos de dedicação para construí-la, melhorá-la… Em segundos, essa parte de você e da sua família é destruída. Não é fácil seguir em frente; você perdeu seu lugar, perdeu sua família. Enquanto eu não tiver meu irmão de volta, nunca vou ficar bem.”

Apesar da dureza do luto, no cotidiano dos alojamentos temporários a solidariedade se torna um ponto de apoio. “Enquanto estou no abrigo, procuro me manter útil ajudando mulheres que amamentam e gestantes”, conta Rosmari.

Essa profunda transformação do ambiente também se reflete na vida urbana. “Às vezes estou na rua e me perco. Não reconheço os lugares porque tantos prédios e comércios desabaram. Tenho dificuldade para me localizar. A farmácia não existe mais, o banco também não existe mais”, compartilha Elvira.

No entanto, através do acompanhamento psicológico contínuo, o processo de cura avança. “Minha força já voltou. Há algumas semanas, eu disse à médica: ‘Quero voltar a trabalhar’. Depois de achar que nunca mais conseguiria.”

Garantir o acesso contínuo a serviços de saúde mental, fortalecer a atenção primária à saúde e promover condições de vida dignas para as pessoas deslocadas são elementos fundamentais para prevenir consequências de longo prazo para a saúde e o bem-estar da população.

Cem dias depois, o principal desafio já não é apenas responder à emergência, mas acompanhar as pessoas e as comunidades em seu processo de recuperação. Porque reconstruir após um desastre significa muito mais do que consertar edifícios: significa também restaurar a sensação de segurança, estabilidade e esperança no futuro.

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