O crescimento dos pagamentos por aproximação está acompanhado de uma mudança nas estratégias dos criminosos digitais. Uma nova pesquisa da NordVPN revela que discussões na dark web sobre como cadastrar cartões bancários roubados em carteiras digitais, como Apple Pay e Google Pay, quase triplicaram em um ano.
De acordo com a pesquisa, um cartão bancário roubado custa aproximadamente US$ 10, em média. Mais de 70% dos anúncios examinados eram de cartões dos Estados Unidos, onde a grande oferta mantém os preços relativamente baixos, geralmente entre US$ 10 e US$ 12.
Entretanto, o valor aumenta quando os registros incluem informações pessoais do titular.
No maior marketplace analisado, cartões comercializados com o número do Seguro Social dos Estados Unidos (Social Security Number, ou SSN) e a data de nascimento da vítima apresentaram preço mediano de US$ 18,85, contra US$ 11,70 daqueles vendidos sem essas informações adicionais. A diferença representa uma valorização de aproximadamente 60%.
Quando os registros incluíam três ou mais informações complementares, como nome, endereço de e-mail, telefone ou endereço residencial, o preço mediano ultrapassava US$ 23, mais que o dobro do valor de um cartão vendido apenas com seus dados básicos.
“É nesse ponto que a fraude com cartões se cruza cada vez mais com a fraude de identidade. Um cartão de pagamento pode ser cancelado rapidamente, mas dados pessoais, como data de nascimento, endereço ou número do Seguro Social, podem continuar circulando muito depois de o cartão deixar de funcionar”, explica Marijus Briedis, CTO da NordVPN.
A investigação também identificou que a possibilidade de utilização do cartão se tornou um dos principais critérios de valorização nos anúncios clandestinos.
Cartões que os vendedores acreditam que continuarão ativos são anunciados como registros de maior qualidade, por aproximadamente US$ 22. Já lotes antigos, com maior probabilidade de conter cartões cancelados, podem ser comercializados por cerca de US$ 2 por registro.
Nos fóruns criminosos e canais do Telegram, os vendedores anunciam taxas esperadas de validade, classificam os cartões de acordo com suas chances de funcionamento e oferecem garantias comerciais.
Cerca de 8 em cada 10 vendedores analisados disponibilizavam alguma modalidade de reembolso ou substituição quando os cartões comercializados não funcionavam.
Até mesmo cartões cancelados continuam tendo valor para os criminosos. Registros conhecidos como dead fullz, que reúnem informações pessoais completas associadas a cartões sem possibilidade de utilização, são vendidos por aproximadamente US$ 1 cada.
Uma vez que conseguem cadastrar o cartão no próprio aparelho, os criminosos podem tentar realizar pagamentos por aproximação, comprar cartões-presente ou adquirir produtos que posteriormente serão revendidos.
Os pesquisadores também identificaram anúncios de cartões classificados como wallet-ready, expressão utilizada por vendedores clandestinos para descrever cartões considerados mais propensos a passar pelos processos de verificação necessários para inclusão em carteiras digitais.
O movimento ocorre enquanto métodos mais antigos, como a clonagem de cartões com tarja magnética e a comercialização de determinadas faixas de números de cartões, perdem relevância nas discussões analisadas.
Nesse contexto, a pesquisa da NordVPN revela uma mudança importante no mercado clandestino: os criminosos não procuram apenas números de cartões roubados, mas também informações e métodos que permitam utilizar esses cartões em dispositivos próprios.
“O mercado clandestino está cada vez menos focado em simplesmente possuir os dados do cartão de alguém e mais em saber se essas informações podem realmente ser transformadas em dinheiro”, afirma Briedis. “Os criminosos procuram cada vez mais o ponto mais fraco relacionado ao cartão, seja a verificação, o acesso à conta ou a identidade associada a ele.”
Como os brasileiros podem se proteger
Para reduzir os riscos, Marijus Briedis recomenda ativar notificações de transações bancárias, acompanhar movimentações financeiras e desconfiar de mensagens ou ligações que solicitem códigos de autenticação.
O especialista também orienta os consumidores a prestar atenção especial aos avisos enviados pelas instituições financeiras quando um cartão é cadastrado em um novo dispositivo. Caso o titular não reconheça a operação, é importante entrar em contato imediatamente com o banco.
O consumidor deve solicitar que a instituição verifique a existência de cartões vinculados a carteiras digitais desconhecidas e, se necessário, desative os tokens de pagamento associados aos dispositivos não reconhecidos. Apenas bloquear o cartão físico pode não ser suficiente em todas as situações, dependendo dos procedimentos adotados pela instituição financeira.
Outra recomendação é nunca compartilhar códigos recebidos por SMS, e-mail ou aplicativos de autenticação com pessoas que entrem em contato inesperadamente, mesmo quando afirmarem representar uma instituição financeira.
Em caso de suspeita, o consumidor deve encerrar a conversa e procurar o banco diretamente pelo aplicativo oficial, pelo telefone impresso no cartão ou pelos canais disponibilizados no site da instituição.
A pesquisa da NordVPN reforça que o avanço das carteiras digitais não significa que essas tecnologias sejam intrinsecamente inseguras. O risco identificado está principalmente nas tentativas de criminosos de explorar falhas de verificação, informações pessoais comprometidas e mecanismos de engenharia social para contornar as proteções existentes.
Metodologia da pesquisaMetodologia da pesquisa
A pesquisa foi conduzida por especialistas da NordVPN a partir de dados analisados por meio da plataforma de gerenciamento de exposição a ameaças NordLayer Intelligence.
O levantamento reuniu mais de 24 mil anúncios individuais de cartões de pagamento em nove marketplaces da dark web, além de aproximadamente 3.900 publicações únicas distribuídas por 14 temas analisados em fóruns criminosos e canais do Telegram.
Os pesquisadores eliminaram anúncios duplicados e republicações para evitar distorções nos resultados. Os dados dos marketplaces foram coletados em fevereiro de 2026, e os preços foram convertidos para dólares americanos para permitir comparações.
Para identificar tendências nas discussões, a equipe analisou o crescimento ou a redução de cada tema em relação ao aumento geral do volume de conversas. Esse procedimento permitiu diferenciar mudanças efetivas no interesse dos criminosos pelo crescimento natural da atividade nas comunidades monitoradas.
Os resultados representam os anúncios e as conversas examinados e não permitem determinar a quantidade de fraudes efetivamente realizadas em cada país.
Sobre a NordVPN
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