João Pessoa, sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Pesquisa aponta que futuro da IA nas empresas será marcado por supervisão humana, regulação fragmentada e redesenho do trabalho
06/11/2026 12:18
Redação ON Reprodução

A discussão sobre Inteligência Artificial nas empresas costuma se concentrar em automação, produtividade e substituição de empregos. Uma nova pesquisa prospectiva da FIA Business School aponta uma agenda menos óbvia: até 2035, o desafio central será decidir onde termina a autonomia da máquina e onde começam julgamento, responsabilidade e autoridade humanas.

A pesquisa “Futuro da Inteligência Artificial nas Organizações: Cenários, competências e governança até 2035”, coordenada pela Profa. Dra. Renata G. Spers, utilizou a metodologia Delphi em duas rodadas de consulta a especialistas. A primeira reuniu 45 respondentes e a segunda, 35 participantes, a maioria ocupa posições de alta liderança, tem pós-graduação, MBA, mestrado ou doutorado e  declararam algum contato professional com IA.

O achado que contraria a narrativa da substituição

O resultado mais concentrado de toda a pesquisa não diz respeito à eliminação de empregos. Ele trata de conhecimento. Para 86% dos participantes da segunda rodada, o modelo adequado para as organizações será híbrido: núcleos de especialistas em IA coexistindo com um nível mínimo de conhecimento disseminado por toda a força de trabalho. O modelo exclusivamente especializado ficou com apenas 3% de indicações.

O dado sugere que a IA tende a se tornar uma competência organizacional distribuída, e não um domínio restrito às áreas de tecnologia. Gestores e profissionais precisarão saber formular problemas, utilizar ferramentas, avaliar resultados e reconhecer riscos, enquanto especialistas concentrarão capacidades profundas de tecnologia, integração e governança.

“O futuro não parece apontar para empresas divididas entre quem entende de IA e quem não entende. O que aparece é uma arquitetura de conhecimento em dois níveis: especialização profunda em alguns núcleos e fluência suficiente em IA disseminada pela organização. Isso muda a agenda de formação de lideranças e equipes”, explica Renata Spers, coordenadora da pesquisa e professora da FIA Business School.

Conselhos: IA para imaginar futuros, não para substituir a deliberação

Outro resultado de forte concentração aparece na governança corporativa. Para 83% dos respondentes da segunda rodada, a análise de cenários estratégicos será uma das principais funções da IA em conselhos e governança até 2035. O percentual supera apoio à conformidade (46%) e geração de pareceres automatizados (31%).

O resultado desloca o debate sobre IA nos boards. O uso de maior valor pode estar menos na automação da rotina do conselho e mais na ampliação de sua inteligência estratégica: identificar sinais, testar hipóteses, simular alternativas, comparar cenários e antecipar riscos. A tecnologia amplia a capacidade de análise; a deliberação e a responsabilidade fiduciária permanecem humanas.

Mais IA, mas não autonomia plena

A pesquisa também revela uma fronteira clara para a delegação. Na segunda rodada, 51% escolheram supervisão parcial, com intervenção humana em decisões estratégicas e éticas.  37% preferiram autonomia auditável. A autonomia plena, que já era residual na primeira rodada, recebeu zero indicação na segunda.

O desenho que emerge é de autonomia graduada conforme risco: sistemas podem ganhar liberdade em decisões operacionais, reversíveis, parametrizadas e monitoráveis, mas a intervenção humana cresce quando entram em jogo impactos e riscos jurídicos, reputacionais, estratégicos, éticos ou sobre pessoas.

A regulação global da IA pode nunca chegar

Um dos resultados mais relevantes para empresas multinacionais está na regulação. O cenário dominante não é o de harmonização mundial. Regulação regional assimétrica (43%) e conflitos regulatórios com instabilidade jurídica (37%) somam 80% das respostas da segunda rodada. A expectativa de convergência para marcos globais robustos ficou em apenas 9%.

A implicação é estratégica: compliance em IA tende a deixar de ser uma adaptação pontual a uma futura regra comum e passar a ser uma capacidade permanente de operar sob regimes distintos. Empresas globais precisarão acompanhar jurisdições, documentar modelos e dados, adaptar controles e construir padrões internos capazes de conviver com um ambiente regulatório fragmentado.

A hierarquia dos riscos: ética e viés preocupam mais do que substituição de trabalhadores

A segunda rodada revela uma hierarquia clara dos riscos associados à adoção intensiva de IA. Uso antiético ocupa a primeira posição, com 69%, seguido por viés algorítmico (63%) e vulnerabilidades cibernéticas (46%). Depois aparecem dependência tecnológica (31%), perda de privacidade (29%), desinformação e manipulação (23%), substituição de trabalhadores qualificados (17%) e concentração de poder (11%). A ordem é relevante: o risco de substituição de profissionais, tão presente no debate público, aparece apenas na sétima posição entre os riscos apontados pelos especialistas.

O painel não ignora os efeitos da IA sobre o emprego, mas desloca o centro da preocupação para a qualidade, a ética e a segurança das decisões apoiadas ou executadas por sistemas de IA. Nos comentários surgiram ainda riscos menos óbvios, como dependência cognitiva, perda da capacidade humana de pensar e criar, defasagem de fornecedores e sistemas e efeitos ainda desconhecidos sobre gerações formadas desde cedo em ambientes intensamente mediados por IA.

O futuro do trabalho permanece em aberto, e isso também é resultado

A questão com maior incerteza é justamente a relação entre humanos e IA em 2035. Nenhum cenário domina: 37% projetam redesenho estrutural das organizações, 34% cooperação simbiótica entre humanos e sistemas e 26% substituição parcial de funções. A simples convivência marcada por tensões ficou em 3%.

Em vez de uma previsão única, o estudo identifica uma incerteza estratégica que empresas precisarão administrar. Automação de funções, criação de novos cargos, redesenho de processos e colaboração humano–máquina podem ocorrer simultaneamente. Para planejamento de força de trabalho, o dado recomenda trabalhar com cenários alternativos, e não apostar em uma única narrativa sobre o futuro do emprego.

Pensamento crítico sobe ao centro da agenda humana

Entre as competências humanas mais valorizadas na segunda rodada, pensamento crítico aparece em primeiro lugar, com 54%, seguido de inteligência emocional (49%), criatividade e inovação (34%), empatia e ética (31% cada). A leitura qualitativa indica que, quanto maior a capacidade da IA de produzir respostas, análises e recomendações, maior se torna o valor de saber questioná-las, contextualizá-las e assumir responsabilidade por decisões.

Saúde lidera disrupção, mas jurídico se consolida entre os setores mais expostos

Saúde (71%), educação e jurídico (66% cada) e cibersegurança e defesa (63%) formam o grupo de setores com maior expectativa de disrupção estrutural. O denominador comum não é simplesmente ser um setor “tecnológico”, mas concentrar dados, documentos, conhecimento especializado e tarefas cognitivas passíveis de modelagem.

Competitividade: eficiência não basta

Na vantagem competitiva, inovação contínua baseada em dados lidera com 69%, seguida por redução de custos operacionais (66%) e criação de novos modelos de negócio (54%). O resultado sugere duas camadas de valor: produtividade tende a se difundir; a diferenciação mais difícil de imitar dependerá da capacidade de transformar dados, automação e redesenho organizacional em novas proposições de valor.

“A pesquisa mostra uma tensão muito interessante: a IA será profundamente disseminada, mas isso não significa delegação irrestrita. Quanto maior a presença da tecnologia na estratégia e nas decisões, mais importantes se tornam governança, pensamento crítico, ética e accountability. O diferencial competitivo estará na qualidade dessa combinação”, conclui Renata.

Sobre a pesquisa

A pesquisa “Futuro da Inteligência Artificial nas Organizações — Cenários, competências e governança até 2035” foi coordenada pela Profa. Dra. Renata G. Spers e conduzida no âmbito da FIA Business School Global C-Level & Board. O estudo empregou a metodologia Delphi em duas rodadas, investigando disrupção setorial, decisão estratégica, competências humanas, vantagem competitiva, riscos, regulação, governança corporativa, autonomia da IA, relação humano–IA e formação organizacional.

Sobre a FIA Business School

Fundada em 1980 por professores da FEA-USP, a FIA Business School é referência em educação, consultoria e pesquisa aplicada, conectando conhecimento acadêmico às demandas reais do mercado e da sociedade. Reconhecida nacional e internacionalmente, possui acreditações globais como AMBA, EFMD e BGA, além do selo BSIS Impact. Com mais de 150 mil alunos formados e 12 mil projetos realizados, a FIA Business School forma líderes capazes de pensar criticamente e agir com impacto.

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