A corrida pelo urânio brasileiro passa pelo Sertão da Paraíba. Nas proximidades de São José de Espinharas, a australiana Core Energy Minerals mantém um projeto voltado à pesquisa do minério utilizado na produção de combustível nuclear. O município também integra a relação de áreas que a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) pretende desenvolver por meio de parcerias com a iniciativa privada.
A presença paraibana nesse mercado aparece em reportagem de André Borges, publicada pela Folha de S.Paulo, que identificou pelo menos cinco grupos nacionais e estrangeiros interessados em negócios relacionados ao urânio e à energia nuclear. Entre eles está a Core, com projetos na Paraíba, em Goiás e no Rio Grande do Sul.
No caso paraibano, a empresa identifica o empreendimento como Projeto São José. Em sua apresentação institucional, informa que ele reúne 11 licenças em uma área próxima a São José de Espinharas. A companhia aponta características geológicas favoráveis à ocorrência de urânio, especialmente a presença de rochas graníticas. Essa avaliação indica potencial para pesquisa, mas não equivale à comprovação de uma operação comercialmente viável.
Paraíba no planejamento oficial
O interesse não se restringe à empresa australiana. A região de Espinharas está entre as cinco províncias minerais contempladas na oferta de parcerias do Programa Pró-Urânio, conduzido pela INB, pelo BNDES e pela ENBPar. As demais ficam na Bahia, em Goiás, no Tocantins e no Paraná.
Em setembro, a INB informou que o BNDES havia selecionado o consórcio responsável por elaborar os modelos dessas parcerias. O prazo anunciado para apresentação das propostas vai até o segundo trimestre de 2027. Os estudos abrangem geologia, viabilidade econômico-financeira, questões regulatórias, aspectos socioambientais e impacto social.
São duas frentes de interesse na mesma região: o projeto apresentado pela Core e o planejamento oficial para a área de Espinharas. As informações consultadas não permitem afirmar que a empresa australiana tenha sido escolhida como parceira da INB para o empreendimento paraibano.
Também não há, nessas fontes, anúncio de início de produção comercial na Paraíba, valor de investimento definido ou previsão de empregos. O prazo de 2027 se refere à apresentação de modelos de parceria, não à abertura de uma mina.
Ex-integrantes do governo Bolsonaro e grupos estrangeiros
No cenário nacional descrito pela Folha, a movimentação envolve o grupo Diamante, a Atlas Critical Minerals, a Core Energy Minerals, a Brazilian Rare Earths e a Energy Fuels. Os planos incluem pesquisa mineral, recuperação de urânio associado a outros minerais e desenvolvimento de pequenos reatores.
A participação de ex-integrantes do governo Bolsonaro aparece no grupo Diamante, que reuniu o ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque e o ex-presidente da ENBPar Ney Zanella. Segundo a reportagem, o grupo também se associou à estatal russa Rosatom para formar a Nadina Minerals.
Esse vínculo pertence a outra frente empresarial. A reportagem não estabelece ligação entre os ex-dirigentes do governo Bolsonaro e o projeto da Core na Paraíba.
Para o estado, a questão concreta é saber se o potencial mineral de São José de Espinharas poderá se transformar em investimento e atividade econômica. Por enquanto, há interesse empresarial e espaço no planejamento federal. A dimensão dos benefícios locais dependerá dos estudos, das condições das futuras parcerias e da viabilidade de cada projeto.

