A morte de um corredor de 48 anos na Meia Maratona realizada entre João Pessoa e Cabedelo, no domingo (16), levantou discussões sobre os riscos do esforço físico intenso. Horas antes de a opinião pública se debruçar sobre o tema, eu próprio passei por um mal súbito. Conto o episódio não por exposição, mas porque episódios assim costumam ser escondidos – e isso não protege ninguém.
Pratico atividades físicas diariamente desde 2008. Desde então caminho cerca de 200 quilômetros por mês, e nos últimos meses intensifiquei o ritmo com musculação, bicicleta, remo e esteira na Academia Prodígio. Tenho me sentido melhor, mais disposto e com ganhos reais de saúde.
No sábado, tudo seguiu o roteiro habitual. Depois de uma série no leg press, com os mesmos 120 quilos que uso regularmente, senti uma tontura forte. Agachei, respirei fundo e, em seguida, sentei num outro aparelho.
Foi o último momento de que me lembro. Desmaiei.
Quando recobrei a consciência, estava cercado por professores, alunos e por minha mulher, Lúcia. Perguntavam meu nome, meu endereço, onde eu estava. Eu ainda tentava entender se estava acordado ou sonhando. A realidade levou alguns segundos para voltar ao lugar.
Enquanto tentavam me manter lúcido, ouvi alguém murmurar algo como “idoso é fod@”. Não levo isso para o lado pessoal, mas o episódio me fez refletir. O que aconteceu comigo acontece com jovens, com atletas, com gente treinada – como prova o caso do corredor que morreu poucas horas depois. Não é exclusividade da idade, nem consequência de fraqueza.
Fui socorrido imediatamente por um bendito casal de alunos – André e Vanessa – e pelos professores da Prodígio, o chefe Alisson à frente. Colocaram-me no carro de André e me levaram ao Hospital da Unimed, onde fui atendido com rapidez. Fiz eletrocardiograma, tomografia do crânio, ultrassom da carótida e exames gerais. Em pouco mais de duas horas eu estava recuperado, todos os exames normais.
O diagnóstico: queda brusca de pressão, possivelmente agravada por um medicamento para baixar a glicose. Uma combinação que, aliada ao esforço físico, derrubou meu organismo como se alguém tivesse desligado um interruptor.
O susto foi grande, mas trouxe aprendizados.
• Exercício é essencial, mas não torna ninguém invulnerável.
• Remédios “inofensivos” podem ter efeitos profundos durante o treino.
• O corpo avisa, e ignorar os sinais cobra um preço.
• Não existe vergonha em ser socorrido; existe risco em tentar disfarçar.
E há um componente emocional que eu não percebi na hora: quem presencia a cena sofre mais do que quem desmaia.
Lúcia, que não saiu do meu lado em nenhum minuto, levou para ela o impacto que eu não consegui sentir plenamente enquanto estava apagado. Hoje tenho plena consciência de que ela sofreu tanto quanto eu – talvez até mais.
Voltei hoje à academia. As perguntas vieram, alguns olhares desconfiados também. Mas o que realmente importa é o recado que fica. Se alguém com rotina diária de caminhadas e acompanhamento constante pode apagar de um instante para o outro, qualquer pessoa pode.
Isso não é motivo para abandonar o exercício. É motivo para se cuidar melhor.
A vida, às vezes, dá avisos silenciosos.
O meu veio no sábado.. E resolvi não ignorar.