quinta-feira, 23 de julho de 2026
Tudo o que você precisa saber sobre o rombo e a crise dos Correios
19/10/2025 11:21
Redação ON Reprodução

A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos atravessa a mais grave crise econômico-financeira de sua história recente. O problema começou em 2022, ainda no governo Jair Bolsonaro, e se aprofundou na atual gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. Já são 12 trimestres consecutivos de prejuízo, e o déficit acumulado chegou a R$ 4,36 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025.

Na última quarta-feira (15), a estatal anunciou que busca R$ 20 bilhões em empréstimos para tentar conter o rombo e reequilibrar suas contas. É o ponto mais dramático de uma trajetória que vem registrando resultados negativos desde 2022 — ano em que os Correios voltaram a operar no vermelho após cinco anos de lucro.

Em 2024, a empresa registrou prejuízo de R$ 2,6 bilhões, o primeiro bilionário desde 2016.

Mas o que explica essa sequência de resultados negativos? A seguir, os principais fatores que colocaram a estatal à beira do colapso.

1. Gastos com pessoal: o maior peso da conta

O item que mais pressiona as contas da empresa é o custo com pessoal.

Em 2022, sob a gestão de Floriano Peixoto Vieira Neto, os Correios concederam dois reajustes salariais — um de 9,75% e outro de 10,12% —, além de um abono de R$ 1 mil para cada empregado. O impacto total foi de R$ 820 milhões naquele ano e R$ 1,3 bilhão em 2023.

A situação se repetiu nas gestões seguintes. Em 2024, o reajuste foi de até 6,57%, acima da inflação (4,83%), e a empresa ainda elevou em 30% a base salarial de parte do quadro, o que representou mais R$ 894 milhões em despesas.

Já em 2025, o novo acordo coletivo concedeu 4,11% de reajuste linear e um bônus de 70% nas férias, elevando a folha em R$ 547 milhões apenas no primeiro semestre.

Além disso, os Correios assumiram uma dívida previdenciária de R$ 2,4 bilhões junto à PREVIC, referente ao plano de aposentadoria dos empregados, com pagamento parcelado por quase 30 anos.

2. “Taxa das blusinhas” e o golpe da Remessa Conforme

Outro fator decisivo para o rombo foi o programa Remessa Conforme, criado em 2023 pelo Ministério da Fazenda.

Com a nova regra, passou a ser cobrado imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — medida apelidada de “taxa das blusinhas”.

Além disso, o programa permitiu que outras transportadoras, e não apenas os Correios, realizassem o frete de mercadorias internacionais.

O resultado foi devastador: a estatal perdeu R$ 2,2 bilhões em receita potencial e viu o faturamento com encomendas internacionais cair de R$ 2,1 bilhões para R$ 815 milhões no primeiro semestre de 2025 — uma queda de quase 60%.

Essa fatia do mercado, que já chegou a representar um quarto do faturamento total da empresa, encolheu rapidamente.

3. Caixa esvaziado e empréstimos em série

Com a queda na receita e o aumento de despesas, o caixa da empresa despencou.

Em 2023, os Correios tinham R$ 3,2 bilhões em caixa; um ano depois, restavam apenas R$ 249 milhões — queda de 92%.

Para fechar as contas, a estatal recorreu a empréstimos emergenciais: R$ 550 milhões junto aos bancos Daycoval e ABC em 2024, e mais R$ 1,8 bilhão com um consórcio de instituições em 2025, a juros de 21,9% ao ano.

Agora, sob comando de Emmanoel Schmidt Rondon, os Correios buscam R$ 20 bilhões para quitar essas dívidas e “recuperar a liquidez da empresa”. Parte do valor seria usada para viabilizar um novo Plano de Demissão Voluntária (PDV).

4. Investimentos sustentáveis em meio à turbulência

Apesar das dificuldades, os Correios afirmam ter mantido uma política de investimento em infraestrutura e sustentabilidade.

Em 2024, foram R$ 830 milhões aplicados em melhorias, totalizando R$ 1,6 bilhão desde 2023.

Os recursos financiaram a compra de 50 furgões elétricos, 3.996 bicicletas de carga e 2.306 bicicletas elétricas, além da renovação de 1.500 veículos da frota.

A empresa diz que seguirá priorizando investimentos em tecnologia e redução do impacto ambiental, mesmo diante dos prejuízos.

5. Crescimento das dívidas judiciais e precatórios

Outro ponto que pressiona o orçamento são os precatórios trabalhistas.

Em 2023, a gestão de Fabiano Silva fez um acordo com o Tribunal Superior do Trabalho (TST) para encerrar 3.781 ações judiciais, assumindo o pagamento das condenações.

O impacto foi imediato: o valor de precatórios saltou para R$ 1,6 bilhão em junho de 2025, mais que o triplo do registrado em 2022.

A previsão é de R$ 913 milhões em pagamentos neste ano e R$ 1 bilhão em 2026.

6. Agências deficitárias e o peso da universalização

Outro desafio é estrutural. Segundo dados da própria empresa, apenas 15% das 10.638 agências dos Correios dão lucro.

Mesmo assim, a estatal é obrigada a manter todas em funcionamento por ser membro da União Postal Universal (UPU), que impõe o dever de garantir o atendimento em todos os 5.567 municípios brasileiros.

Isso impede o fechamento de unidades deficitárias e agrava o desequilíbrio financeiro.

7. Planos de reestruturação e cortes

A atual gestão anunciou um plano de emergência dividido em três frentes:

  • corte de despesas administrativas e operacionais;
  • diversificação das receitas;
  • e recuperação da liquidez da empresa.

Entre as medidas adotadas estão:

  • novo PDV, após o encerramento do anterior que teve 2.500 adesões;
  • venda de imóveis ociosos (R$ 2,9 milhões já arrecadados);
  • redução de 20% nos cargos comissionados;
  • suspensão temporária das férias até janeiro de 2026;
  • e lançamento de um marketplace próprio ainda em 2025.

Há também tratativas para captar R$ 3,8 bilhões junto ao New Development Bank (NDB), o chamado “Banco dos Brics”.

8. Privatização volta ao debate

Com o cenário de crise e o pedido de empréstimo bilionário, a privatização dos Correios voltou a ser debatida nos bastidores de Brasília.

O jurista Fernando Vernalha defende que o tema seja rediscutido “com menos ideologia e mais pragmatismo”, avaliando o que é mais vantajoso para o cidadão e para a União.

Ele reconhece, contudo, que a operação enfrentaria grandes obstáculos técnicos, já que os Correios são obrigados por lei a atuar mesmo em regiões que dão prejuízo.

“É possível pensar em modelos mistos, como foi feito na telefonia, em que setores rentáveis subsidiam os deficitários”, pondera Vernalha.

O desafio de evitar o colapso

A sobrevivência dos Correios depende, agora, de uma combinação entre corte de custos, renegociação de dívidas e novas fontes de receita.

O pedido de empréstimo de R$ 20 bilhões é visto internamente como uma tentativa de “comprar tempo”, enquanto se tenta reformular a estrutura da empresa.

Mas a dúvida persiste: será suficiente para salvar uma estatal que há três anos não vê o azul no balanço?

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