João Pessoa, segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Temporada das baleias-jubarte termina com menos filhotes; Motivo pode ser o aquecimento global, dizem pesquisadores
02/11/2026 09:18
Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Todos os anos, as baleias-jubarte percorrem quase 4 mil quilômetros, desde a Antártida, onde se alimentam, até o arquipélago dos Abrolhos, no sul da Bahia, onde acasalam e dão à luz a filhotes. Mas, este ano, poucos nascimentos foram registrados na “maternidade” de baleias do Brasil. A principal hipótese é que isso seja consequência do aquecimento global.

Nas contas do Instituto Baleia Jubarte, até setembro, a proporção de filhotes dentro da população de baleias avistadas foi de apenas 3,35%, bastante abaixo da média histórica de 9,98%, registrada desde 2014. Durante toda a temporada do ano passado, a taxa bruta de natalidade foi de 10,7%, e o recorde foi verificado em 2024: 16,69%.

O diretor de pesquisas do instituto, Milton Marcondes, explica que as mudanças climáticas podem estar afetando a disponibilidade de krill na Antártida. Os pequenos crustáceos marinhos são o alimento quase exclusivo das jubartes.

“Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”, acrescenta Marcondes.

As jubartes não costumam se alimentar durante a viagem, portanto, precisam acumular um bom estoque de gordura antes de partir rumo a Abrolhos, especialmente as que estão gestantes e terão que amamentar os filhotes.

Mas, com poucos filhotes, a segunda categoria mais vulnerável acaba se destacando: os animais jovens.

“Em um ano ruim, um adulto pode saber onde buscar comida, como capturá-la e ter ainda uma reserva de gordura. Os juvenis têm menor capacidade de estocar gordura e também são menos experientes.”

Outro dado atípico chama a atenção. Como as baleias juvenis ainda não estão prontas para acasalar, elas costumam parar a viagem nos estados mais ao sul. Com isso, os estados campeões de registros de encalhe, este ano, são Santa Catarina e São Paulo, ao contrário da distribuição padrão, com maior quantidade no Espírito Santo e na Bahia.

Por enquanto, o número de encalhes é menor do que no ano passado: 59 contra 78. Uma pesquisa do instituto já conseguiu correlacionar a baixa disponibilidade de krill na Antártida, com picos de encalhe registrados em 2010, 2017 e 2018.

O recorde de 230 animais mortos na costa brasileira foi registrado em 2021, um ano em que também houve poucos filhotes. Mas, por causa da pandemia, não foram feitas coletas para estimar a quantidade de krill disponível para a alimentação das baleias.

“Este ano, nós não tivemos pico de encalhe. Pelo contrário, os números são relativamente baixos. Mas nós estamos tendo mais casos envolvendo juvenis no Sul. Se continuar o problema com disponibilidade de krill, pode ser que no ano que vem a gente tenha uma mortalidade atípica, porque geralmente é cumulativo”, alerta Marcondes.

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