A escolha da Lufthansa para adquirir uma participação na TAP pode ampliar as opções de conexão dos brasileiros com a Europa e fortalecer a presença da companhia portuguesa no país. A integração, porém, ainda não garante novas rotas, aumento de frequências ou passagens mais baratas.
O governo português selecionou o grupo alemão para comprar 44,9% da TAP, participação que poderá chegar a 49,9% caso os trabalhadores não adquiram os 5% reservados a eles. Nesta etapa, o Estado mantém 50,1% e o controle acionário. O plano prevê preservar a marca, a sede e o centro de conexões em Lisboa, além de reforçar a atuação na América Latina. (portugal.gov.pt)
Brasil é peça central
A rede brasileira da TAP é um dos principais atrativos da negociação. A companhia liga diferentes cidades do país a Lisboa, permitindo que passageiros embarquem para a Europa sem precisar passar por São Paulo ou Rio de Janeiro.
Segundo dados da Euromonitor, a TAP transportou aproximadamente 2,2 milhões de passageiros no Brasil em 2025, contra cerca de 383 mil da Lufthansa. No recorte de empresas sediadas no exterior e dedicadas integralmente ao transporte internacional, a portuguesa lidera em número de passageiros no país.
Para a Lufthansa, essa presença representa uma oportunidade de ampliar sua participação no mercado brasileiro aproveitando uma estrutura já consolidada. A combinação das redes também poderá facilitar conexões com destinos atendidos pelo grupo alemão, que reúne empresas como Swiss, Austrian Airlines e Brussels Airlines.
Roberto Kanter, professor dos MBAs de Gestão Comercial da Fundação Getulio Vargas, considera o Brasil um dos ativos estratégicos mais importantes da operação e vê potencial de crescimento. Os benefícios poderão incluir melhores conexões, serviços e programas de fidelidade, dependendo de como a integração for organizada.
Mais opções, mas sem garantia de economia
A possibilidade de encontrar mais destinos não significa necessariamente pagar menos. Bruno Boris, professor de Direito do Consumidor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, avalia que eventuais ganhos de eficiência poderão favorecer as tarifas, desde que sejam repassados ao consumidor.
Kanter ressalta, por sua vez, que uma companhia maior também pode aumentar a concentração do mercado. O efeito sobre os preços dependerá da concorrência nas rotas e das condições comerciais adotadas.
Felipe Carreirão e Maria Eduarda Mazzafera, da Euromonitor, enxergam a negociação principalmente como um fortalecimento de uma posição já relevante no Brasil. Para eles, ainda é cedo para prever uma mudança expressiva na oferta de voos.
Nordeste e cidades fora do eixo Rio-São Paulo
A integração ocorre em um momento de expansão das ligações entre cidades brasileiras e centros internacionais. A Euromonitor destaca que esse movimento já acontece independentemente da negociação, com participação do Nordeste e de aeroportos fora dos principais mercados.
Portugal ocupa posição importante nesse fluxo: é o terceiro país mais visitado por passageiros que embarcam no Brasil, atrás dos Estados Unidos e da França, segundo a consultoria. No sentido inverso, aparece em sétimo entre os países de origem dos passageiros que chegam ao território brasileiro.
O plano apresentado pela Lufthansa contempla o fortalecimento da operação no Porto e a expansão da frota da TAP para até 130 aeronaves no longo prazo. São objetivos anunciados, sem confirmação de novas rotas brasileiras. (portugal.gov.pt) As restrições de capacidade do aeroporto de Lisboa também podem limitar o crescimento, observa Kanter.
Para o passageiro brasileiro, a perspectiva é de uma rede mais ampla de conexões. A tradução dessa integração em mais voos, melhores serviços e tarifas competitivas dependerá das próximas etapas da operação e das decisões comerciais das companhias.

