sexta-feira, 24 de abril de 2026
Sem disputa política, João Pessoa tenta resolver crise do esgoto
24/04/2026 05:47
Redação ON Reprodução

João Pessoa vive há alguns anos uma rara lua de mel com o turismo. A capital paraibana se consolidou como destino desejado, presença constante em listas de cidades mais buscadas e elogiadas pela combinação de beleza natural, qualidade de vida e crescimento urbano. Mas, como quase sempre acontece, basta um problema estrutural mal resolvido para ameaçar essa imagem construída com tanto esforço.

Agora, sem o peso imediato da disputa política, surge uma tentativa mais concreta de enfrentar um dos problemas mais sensíveis dessa vitrine: o despejo irregular de esgoto na orla.

O tema deixou de ser apenas técnico e virou crise pública. Não apenas pela gravidade ambiental, mas pelo impacto direto nas praias de Cabo Branco, Tambaú, Manaíra e Bessa, justamente as mais frequentadas por turistas e moradores.

Durante meses, o que se viu foi um jogo de empurra entre a Prefeitura e a Cagepa. De um lado, o então prefeito Cícero Lucena apontando falhas históricas na expansão da rede de esgoto e denunciando ligações clandestinas que estariam despejando resíduos diretamente nas galerias pluviais. Do outro, a companhia estadual rebatendo, afirmando que o problema também passa por falhas em projetos aprovados pelo município e ausência de fiscalização adequada em estabelecimentos e construções.

Nesse cenário de acusações cruzadas, o prejuízo foi coletivo. A poluição avançou, trechos de praia foram considerados impróprios e a imagem da cidade começou a sofrer desgaste — algo particularmente sensível para um destino turístico em ascensão.

Estabelecimentos punidos

A situação ganhou contornos ainda mais preocupantes quando a Justiça determinou medidas urgentes para conter o lançamento irregular de efluentes. Paralelamente, a Sudema intensificou fiscalizações, notificando restaurantes por ausência ou inadequação de sistemas de retenção de gordura. Entre os casos, estabelecimentos em áreas nobres da orla foram autuados, evidenciando que o problema não está restrito ao poder público, mas também envolve o setor privado.

Um dos episódios que mais chamou atenção foi a penalização de casas conhecidas, como o Bar do Cuscuz, empreendimento associado ao jogador Hulk. O caso ajudou a dar visibilidade ao problema, mostrando que a irregularidade pode atingir até negócios consolidados e de grande exposição.

Mas há um novo elemento nessa história – e talvez seja o mais relevante.

Sem a pressão direta de disputas eleitorais, o atual prefeito Léo Bezerra e o governador Lucas Ribeiro decidiram sentar à mesa para tratar do problema de forma conjunta. A iniciativa marca uma mudança de tom: sai a retórica de confronto, entra a tentativa de coordenação.

Léo Bezerra já deixou claro que o objetivo é fazer com que cada ente assuma suas responsabilidades. Lucas Ribeiro, por sua vez, sinalizou que o diálogo com a Cagepa já começou e que o encontro com a Prefeitura é peça-chave para construir uma solução integrada.

O ponto central é simples, mas raramente aplicado: saneamento não se resolve com disputa política, mas com cooperação técnica e administrativa.

Há um detalhe importante que ajuda a explicar esse novo ambiente. Diferentemente de momentos anteriores, nem Léo Bezerra nem Lucas Ribeiro estão diretamente envolvidos em disputas eleitorais neste ciclo. Isso reduz o incentivo ao conflito e abre espaço para decisões mais racionais — algo que dificilmente aconteceria em um cenário com João Azevêdo e Cícero Lucena em posições de enfrentamento político mais direto, com interesses eleitorais no horizonte.

O desafio agora é transformar essa boa vontade em resultados concretos. Porque o problema é complexo: envolve ligações clandestinas, falhas estruturais, crescimento urbano acelerado, fiscalização insuficiente e até hábitos inadequados de estabelecimentos comerciais.

João Pessoa chegou a um ponto em que não pode mais tratar o saneamento como questão secundária. A mesma cidade que se vende como paraíso turístico precisa garantir que suas águas estejam à altura dessa promessa.

Se a política ficar de lado — não a política institucional, mas a politicagem — há uma chance real de avanço. Caso contrário, o risco é continuar assistindo ao mesmo roteiro: enquanto autoridades discutem de quem é a culpa, o esgoto segue correndo para o mar.

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