À medida que o calendário eleitoral se aproxima, a relação entre o governo João Azevêdo e a Prefeitura de João Pessoa, comandada por Cícero Lucena, vai deixando de lado a cordialidade institucional e passa a ser marcada por trombadas públicas. O que antes era tratado com diálogo, hoje vira atrito. Qualquer episódio, por menor que seja, transforma-se em disputa política.
O episódio mais recente aconteceu neste fim de semana, no Centro Histórico da capital, e envolve o secretário de Administração do Estado, Tibério Limeira, pré-candidato a deputado estadual.
Uma festa realizada no Largo de São Pedro, ao lado do histórico Hotel Globo, terminou com reclamações da Prefeitura sobre sujeira, falta de organização, estrutura montada sem retirada no prazo e ausência de autorização formal para o evento. O local é área tombada e integra um dos conjuntos patrimoniais mais sensíveis de João Pessoa.
A Prefeitura afirma que recebeu diversas denúncias e que, após fiscalização, notificou os responsáveis.
Segundo o secretário executivo do Centro Histórico, Thiago Lucena, a gestão municipal não emitiu nota oficial, mas agiu a partir das denúncias encaminhadas à Prefeitura.
Ele explicou que a estrutura montada para o evento deveria ter sido retirada ainda na noite de domingo, o que não ocorreu, permanecendo no local durante toda a segunda-feira, inclusive obstruindo o trânsito. A Prefeitura concedeu um prazo de 24 horas para a retirada completa.
Sobre a sujeira deixada no local, Thiago Lucena afirmou que qualquer evento privado precisa apresentar um plano de gestão de resíduos. Caso o organizador deseje utilizar o serviço da Emlur, é necessário solicitar autorização prévia, com cobrança de taxa. Isso, segundo ele, não foi feito.
Diante da situação, a Prefeitura enviou equipes para realizar a limpeza emergencial.
Outro ponto levantado diz respeito à instalação de estruturas em área tombada. De acordo com a Secretaria do Centro Histórico, houve denúncia de instalação de estacas no pavimento histórico para fixação de tendas, o que motivou a notificação dos órgãos de patrimônio, que ficaram responsáveis pela fiscalização.

A versão de Tibério
Procurado por O Norte Online, Tibério Limeira se manifestou e negou ser o responsável pela organização do evento.
Ele afirmou que comemorou o aniversário no local, mas que a festa não era de sua responsabilidade. Segundo Tibério, o evento foi organizado por terceiros, com todos os protocolos tratados diretamente com o organizador. Ele explicou que, por coincidência, é músico, toca percussão e a banda que se apresentou é a mesma da qual faz parte, o que motivou o convite aos amigos para a comemoração.
Os detalhes administrativos, segundo ele, devem ser esclarecidos com o organizador do evento, que seria o empresário André Xingu.
Também ouvido por O Norte Online, Xingu apresentou documentos que comprovam a autorização da administração municipal para a realização do evento. Ele afirmou que o evento foi autorizado, que se tratava da gravação de um programa de verão e que todas as permissões foram buscadas pelo produtor responsável.
Segundo ele, houve falha do fornecedor contratado para a desmontagem da estrutura, que alegou questões de segurança para não realizar o serviço no prazo previsto. Ele classificou o ocorrido como um transtorno lamentável e disse ter passado todo o dia cobrando a retirada da tenda. Afirmou ainda que a desmontagem já estava em andamento e que o evento, segundo ele, teve autorização do órgão municipal.
Independentemente das versões, o episódio escancara o novo clima entre Estado e Prefeitura. Um evento que, em outro momento, poderia ser resolvido internamente, virou exposição pública, troca de versões e combustível político.
A sujeira deixada no Centro Histórico pode até ser o fato concreto, mas o pano de fundo é outro: a aliança ficou no passado e, agora, qualquer festa vira motivo de disputa.