terça-feira, 4 de agosto de 2026
Projeto por órfãos da Covid liderado por jornalista paraibano segue engavetado após seis anos
25/03/2026 18:01
Redação ON Reprodução

O jornalista Walberto Maciel liderou, há seis anos, um movimento nacional em prol de crianças que perderam seus responsáveis durante a pandemia. A iniciativa conseguiu tirar o tema da invisibilidade, mas o principal resultado esperado — a criação de um Fundo de Amparo aos Órfãos — segue travado no Congresso Nacional.

Em 2021, quando mais de 3 mil pessoas morriam por dia vítimas da Covid-19, Walberto, paraibano radicado em Brasília, lançou a campanha Órfãos da Covid-19 com o apoio de centenas de pessoas. O objetivo era criar uma lei que garantisse aos menores de 21 anos — que estavam perdendo pais, avós, padrastos e outros mantenedores — uma pensão até a maioridade.

A proposta previa que crianças órfãs da pandemia, e todos os órfãos a partir de 2020, recebessem apoio financeiro de um fundo específico. “O fundo seria mantido pelo imposto sobre grandes fortunas e por uma parte do dinheiro arrecadado pelas loterias. Hoje teríamos as bets para financiar este apoio a essas crianças, além de todo esse dinheiro desviado pelo Banco Master, que seria mais do que suficiente”, afirma.

A ideia foi inicialmente apresentada no site e-Cidadania do Senado Federal e acabou sendo acolhida pela senadora Eliziane Gama (PSD-MA), que a transformou no Projeto de Lei 2.180/2021. O texto foi incluído no relatório final da CPMI da Covid-19 pelo senador Renan Calheiros, mas até hoje aguarda votação no Senado.

“Quando iniciei, juntamente com vários companheiros da área de comunicação, a divulgação dessa ideia, minha mulher Sara sugeriu que eu encaminhasse diretamente a um parlamentar, pois seria mais rápido. Eu disse que faria isso, mas tinha certeza de que, depois de entrar nos corredores do Congresso, a proposta seria esquecida pelos políticos”, relembra o jornalista.

A avaliação, segundo ele, se confirmou com o passar dos anos.

Em uma matéria publicada no Portal O Sul, com base em dados do Estado de São Paulo, o jornalista reforçou o esquecimento do tema. Um dos pontos mais impactantes foi a estimativa de que cerca de 1,3 milhão de crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, ficaram órfãos no Brasil em decorrência da pandemia.

“Esse número ainda pode estar subestimado, já que nem o total de mortos o Brasil conseguiu fechar. E ainda há registros de mortes por Covid-19 todos os anos. Ou seja, continuamos tendo órfãos da doença no país”, observa.

Walberto também lembra que o Consórcio de Governadores do Nordeste chegou a aprovar, à época, um benefício de um salário mínimo para crianças órfãs até os 18 anos. “Não tenho informações se isso realmente está sendo executado”, afirma.

Segundo ele, o governo Lula, no início do mandato, chegou a prometer atenção ao tema. No entanto, na prática, os órfãos seguem sendo absorvidos por familiares — muitas vezes sem estrutura — ou encaminhados para instituições que, em diversos casos, enfrentam limitações.

Além da mobilização na imprensa, Walberto lançou um e-book em português e inglês, com renda revertida para famílias carentes afetadas pela pandemia.

“Eu dei uma pausa no tema por conta da decepção com os políticos, mas já vinha pensando em retomar ações para tentar viabilizar o fundo e garantir apoio nacional aos órfãos do Brasil. Isso daria segurança não só aos afetados pela pandemia, mas a toda a orfandade no país. Hoje temos filhos de vítimas de feminicídio, de enchentes e da violência urbana. O projeto pode e deve ser ampliado”, defende.

A ideia nasceu em novembro de 2021, em um momento de reflexão pessoal. “Morriam três mil pessoas por dia no Brasil. Eu pensei: e se eu morrer, ou se morrermos eu e Sara, como ficariam nossos filhos? Naquele momento, passei a olhar para fora de casa, para as milhares de crianças que já tinham perdido seus responsáveis. Sentei ao computador, escrevi o e-book e publiquei a proposta”, relata.

A mobilização acabou ganhando força política, mas não avançou na prática.

A história também carrega um componente pessoal marcante. Walberto teve duas infecções por Covid-19 e Sara teve três. Em uma delas, ela chegou a sofrer uma parada cardíaca e sobreviveu. Hoje, o casal afirma que segue agradecido pela recuperação e motivado a ajudar crianças que ficaram órfãs no Brasil.

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