A escalada dos valores cobrados por artistas para apresentações em festas públicas já virou tema central de debate entre prefeitos da Paraíba e acendeu um alerta sobre o futuro de eventos tradicionais como Carnaval e São João no interior do estado. Gestores relatam pressão crescente sobre orçamentos já apertados, em um cenário de queda de arrecadação e aumento de despesas obrigatórias. A preocupação ganhou corpo em reuniões recentes com órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado, e em conversas dentro das associações municipalistas, que buscam parâmetros para conter gastos e evitar que a conta das festas recaia sobre áreas essenciais. As informações são do colunista Carlos Madeiro, do portal UOL.
Na prática, a discussão deixou de ser abstrata. Prefeitos paraibanos relatam que cachês que até pouco tempo eram considerados altos hoje se tornaram simplesmente impraticáveis para cidades de pequeno e médio porte. A avaliação é que a expansão do uso de recursos públicos para bancar grandes eventos inflacionou o mercado artístico, criando uma disputa desigual entre municípios por atrações cada vez mais caras. Com menos margem fiscal, cresce o dilema: manter a tradição cultural ou preservar o mínimo de equilíbrio financeiro das prefeituras. Entidades representativas de prefeitos no Cariri e Agreste apontam que os valores pedidos hoje estão desconectados da realidade local e defendem pactos regionais para impor algum freio a essa corrida.
O efeito já começa a aparecer em decisões concretas. Na Paraíba, Santa Luzia anunciou o cancelamento do Carnaval, com a justificativa de redirecionar recursos para enfrentar os impactos da seca. A medida, ainda que impopular em termos culturais, passou a ser tratada nos bastidores como um exemplo de escolha dura, porém pragmática, diante da compressão orçamentária enfrentada por municípios do semiárido.
O movimento não é isolado. No Ceará, cidades como Tauá, Caucaia e Jaguaretama cancelaram as festas, e prefeitos têm reclamado publicamente do salto nos valores cobrados por artistas, com cachês que mais que dobraram em relação ao ano anterior. No Rio Grande do Norte, Paraú tomou decisão semelhante, também alegando prioridade para ações contra os efeitos da seca. Na Bahia, uma comissão de prefeitos chegou a firmar um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público para estabelecer critérios e limites de gastos com contratações artísticas no São João. A leitura compartilhada entre gestores nordestinos é que, sem algum tipo de coordenação regional, a inflação dos cachês tende a se espalhar de estado em estado, pressionando ainda mais os cofres municipais.
No fundo, o que se desenha é uma encruzilhada política e administrativa: como preservar festas que fazem parte da identidade cultural do Nordeste sem transformar o entretenimento em um fator de desequilíbrio fiscal permanente. A Paraíba, ao trazer o tema para a mesa com o TCE e estimular o debate entre prefeitos, sinaliza que o problema deixou de ser pontual e passou a ser tratado como uma questão estrutural de gestão pública.