Os sites e aplicativos de apostas autorizados deixaram de operar no Brasil em 6 de outubro. A Medida Provisória nº 1.394/2026 proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade dessas plataformas. Para empresas que vendem pela internet, o efeito precisa ser lido além dos anúncios e patrocínios retirados: as bets disputavam o mesmo dinheiro e a mesma atenção destinados a cursos, produtos, serviços e entretenimento.
Para Leandro Ferrari, especialista em marketing digital, as apostas se tornaram um concorrente que raramente aparecia nas análises de mercado. Quando uma campanha vendia menos do que o esperado, empresas costumavam observar o cenário econômico e os rivais do próprio segmento, sem considerar que parte do orçamento disponível do consumidor havia mudado de destino.
O Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, elaborado pelo Comsefaz com o Centro Internacional Celso Furtado, estimou perda líquida de R$ 62,5 bilhões para as famílias em 2025. Entre outubro de 2024 e março de 2026, quase R$ 351 bilhões foram movimentados por Pix com destino às apostas. Esse fluxo total não equivale ao faturamento das plataformas.
Um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo calculou que até R$ 40,4 bilhões por ano podem ser redirecionados para consumo, poupança ou pagamento de dívidas. A projeção anualiza a receita bruta do primeiro semestre de 2026 e não considera eventual migração para sites ilegais. Governo e instituições financeiras já identificaram queda nas transferências para o setor, mas ainda não há dados consolidados sobre o destino dos recursos.
“Durante anos, as bets concorreram com qualquer negócio interessado na renda disponível do brasileiro. O dinheiro destinado a uma aposta deixava de financiar uma compra, um serviço ou uma formação. A saída desse competidor não garante vendas, mas devolve às empresas a oportunidade de disputar esse orçamento com entregas concretas”, afirma Ferrari.
A concorrência também ocorria pela visibilidade. Segundo levantamento do Ibope Advertising Intelligence citado pelo UOL Economia, 15 das maiores casas de apostas investiram cerca de R$ 3 bilhões em publicidade no país em 2025. A retirada desses anunciantes pode reduzir a pressão por impressões, influenciadores e patrocínios, sobretudo no esporte, mas não assegura queda uniforme no custo da mídia. O dado mede o poder de compra de atenção do setor, não um benefício econômico para as famílias.
Os efeitos ultrapassam o marketing. Dados do Ministério da Saúde mostram alta de 140% nos atendimentos do SUS ligados a transtornos do jogo entre 2018 e 2025. A rede ampliou para até 100 mil por mês a capacidade de teleatendimento. Endividamento e danos à saúde tornam insuficiente uma leitura baseada apenas na receita publicitária perdida.
Ferrari relata que essa posição também teve custo pessoal: ele recusou R$ 1,5 milhão de uma casa de apostas para financiar sua participação na Porsche Cup em troca da associação de sua imagem. Segundo o especialista, o contrato aproximaria um objetivo pessoal, mas contrariava sua avaliação sobre os riscos do setor.
“Uma marca também escolhe o comportamento que ajuda a normalizar. Não faria sentido defender negócios baseados em entrega e associar minha imagem à promessa de dinheiro fácil que agrava problemas financeiros e de saúde”, explica o especialista.
Para os negócios digitais, a redistribuição exige cautela. O dinheiro pode quitar dívidas, formar poupança ou migrar para operadores clandestinos. A medida provisória ainda depende do Congresso e é questionada no Supremo. Não há base para projetar crescimento automático, embora saia do mercado formal um concorrente de grande escala pelo bolso do consumidor.
O espaço aberto não se resume a uma lacuna publicitária de R$ 3 bilhões. A principal mudança está no possível retorno de consumo e atenção a produtos, serviços e conhecimento. Capturar essa demanda exigirá valor verificável, promessas responsáveis e resultados sustentáveis.
Sobre Leandro Ferrari
Leandro Ferrari é empreendedor e especialista em marketing digital, com atuação voltada à estruturação e à expansão de negócios digitais. Fundador da XFlow e cofundador do Nexum Mastermind e da Scale Mentoring, reúne experiência em vendas, lançamentos, construção de audiência, recorrência, LTV e desenvolvimento de estratégias orientadas por dados.
Também apresenta o podcast “Por Trás do Sucesso”, no qual recebe empresários e nomes do mercado digital para discutir decisões, erros, posicionamento e os bastidores que sustentam o crescimento de uma empresa. Em seu trabalho, Ferrari defende a profissionalização do setor, a construção de negócios sólidos e uma comunicação baseada em promessas responsáveis, valor verificável e resultados sustentáveis.