quinta-feira, 23 de julho de 2026
O forró pede passagem: música de cearense vira hino contra a descaracterização do São João
29/06/2025 13:25
Redação ON Reprodução

Nos últimos anos, tem crescido o debate em torno da presença de artistas sertanejos nas festas juninas do Nordeste. Com cachês que muitas vezes ultrapassam a marca de um milhão de reais, esses cantores vêm ocupando espaços que antes eram reservados a artistas regionais, comprometendo, segundo muitos, a autenticidade do São João.

Embora sejam populares e atraiam grandes públicos, a participação desses artistas tem gerado forte reação de músicos, produtores e defensores da cultura nordestina. Nomes consagrados como Elba Ramalho e Alceu Valença já se posicionaram publicamente em defesa da valorização do forró pé-de-serra e da originalidade da festa.

Agora, essa insatisfação ganhou uma trilha sonora. O cantor e compositor cearense Rômulo Santarém lançou a canção “Respeito ao Meu São João”, que sintetiza, em versos diretos, a indignação de boa parte dos nordestinos diante da crescente descaracterização das festas juninas. A música não é um ataque a outros gêneros, mas um apelo por respeito à tradição, à identidade regional e aos artistas que há décadas sustentam o forró de raiz.

A letra fala de pertencimento, território e resistência cultural. É um grito de quem pede que o São João volte a ser o que sempre foi: uma celebração do Nordeste e da sua gente.

“Cada ritmo no seu lugar”

A canção começa de forma incisiva, com um verso que tem se tornado um verdadeiro slogan da resistência cultural nordestina:

“Cada ritmo no seu lugar, e o São João com o forró que sempre foi dele.”

Aqui, o autor deixa clara sua posição: não se trata de rejeição a outros estilos musicais, mas de preservação de um espaço que tem identidade própria. O São João nordestino, com suas raízes fincadas no forró pé-de-serra, não pode ser descaracterizado em nome da lógica mercadológica dos grandes eventos.

Outro trecho que chama atenção é:

“Não é ataque, é só respeito / Ao zabumbeiro, ao sanfoneiro, ao meu terreiro.”

Rômulo faz questão de afastar a ideia de intolerância musical. A música, segundo ele, é um manifesto de valorização — não de exclusão. É um chamado por reconhecimento dos artistas que representam a alma da festa: aqueles que tocam sanfona, triângulo e zabumba, muitas vezes ignorados pelas grandes estruturas de palco.

Em outro momento, a canção afirma:

“Não me venha com modinha / Que no meu arraial tem tradição.”

É um recado direto às programações que priorizam repertórios alheios ao contexto cultural do São João. A “modinha” representa aqui os hits radiofônicos, que por mais populares que sejam, não carregam o peso simbólico e histórico do forró.

A letra segue com versos que exaltam o pertencimento regional e a força simbólica da festa junina como um marcador identitário do povo nordestino. Em tempos de homogeneização cultural, “Respeito ao Meu São João” é mais do que uma música: é um ato político e afetivo.

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