A semana começou em clima de pânico em Brasília, que vive uma tensão real e ameaçadora. Não é ruído de bastidor, é alarme institucional. A Polícia Federal conseguiu decodificar o conteúdo dos celulares apreendidos na investigação do escândalo do Banco Master, entre eles o aparelho de Daniel Vorcaro, dono da instituição. A partir daí, o que antes era um grande caso financeiro ganhou contornos de crise política e institucional com potencial de atingir o topo da República.
O acesso ao conteúdo dos aparelhos é visto, dentro e fora dos gabinetes, como um divisor de águas na investigação. Fontes em Brasília descrevem o momento como o início de uma fase “sem volta”, em que nomes, relações e fluxos de dinheiro passam a sair do campo da especulação para o terreno das provas documentais. O temor não é abstrato: há avaliação de que os dados podem alcançar integrantes do Congresso, operadores políticos do Centrão e, em um cenário mais sensível, figuras com trânsito em instâncias superiores do Judiciário.
Relatos de bastidores dão conta de que empresas ligadas a familiares de autoridades, contratos de consultorias pouco transparentes e pagamentos recorrentes já aparecem no radar dos investigadores. O que está em jogo não é apenas a legalidade de contratos, mas a suspeita de uma engrenagem mais ampla de influência, pressão e circulação de recursos envolvendo o sistema político e institucional.
Direto da redação
Mensagens encontradas nos aparelhos, segundo informações que circulam em Brasília, indicariam cobranças diretas por liberação de pagamentos e pedidos de intervenção, o que, se confirmado, muda completamente a gravidade do caso.
Dentro do próprio campo governista, o diagnóstico é de que o escândalo terá “dano colateral”. Dirigentes e quadros históricos do PT admitem reservadamente que haverá impacto sobre alguns nomes ligados ao partido, mas a aposta predominante é que o epicentro da crise está no Centrão. A leitura feita na redação do Jornal de Brasilia – parceiro do portal O Norte Online – é de que, do lado do PT, os efeitos seriam residuais, enquanto, do outro, o sistema político mais pragmático e fisiológico seria atingido em cheio. Em outras palavras: a crise tende a atingir o coração do modelo de articulação política que sustenta maiorias no Congresso.
A investigação do Banco Master, que começou com a tentativa de venda do banco ao BRB, depois de aportes bilionários em uma instituição já considerada frágil, rapidamente ganhou ramificações. A Polícia Federal já mapeou a atuação de empresas de apostas online que teriam financiado campanhas de ataque reputacional contra o Banco Central, com uso de influenciadores de grande alcance. Essas empresas, por sua vez, são ligadas a grupos políticos e empresariais que também estão no foco das apurações. O desenho que se forma é o de um ecossistema que mistura dinheiro, pressão institucional, lobby e construção artificial de narrativas públicas.
O coração do Congresso
Outro eixo sensível da apuração envolve o Congresso Nacional. A PF trabalha com a hipótese de que houve compra de apoio parlamentar por meio de estruturas associadas ao Banco Master. Esse braço da investigação amplia o risco político do caso e explica por que o clima em Brasília é descrito como de apreensão generalizada. O escândalo já se desdobra em operações em São Paulo, Rio de Janeiro e Amapá, além do inquérito que tramita no Distrito Federal, com desdobramentos no Supremo Tribunal Federal.
O Congresso, por sua vez, entrou oficialmente no jogo. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado abriu uma comissão especial para apurar o caso. Na quarta-feira, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, vai prestar esclarecimentos sobre o andamento das investigações. No mesmo dia, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Edson Fachin, também tem presença prevista na comissão. A simbologia política é pesada: Executivo, Judiciário e sistema financeiro cruzam caminhos no centro de um escândalo que ameaça transbordar para além de qualquer bolha partidária.
A combinação de celulares abertos, investigações pulverizadas em vários estados, ramificações no Congresso e reflexos no Judiciário transformou o caso Banco Master em algo maior do que um escândalo financeiro. O que está em curso é um teste de estresse das instituições. Presunção de inocência segue sendo um princípio inegociável, mas não pode servir como cortina para travar apurações. Se as provas confirmarem que o sistema de poder foi contaminado por esquemas de influência e dinheiro, o impacto será profundo.
Em Brasília, a leitura é clara: não se trata mais de um caso isolado, nem de um ruído passageiro. A abertura dos celulares é o momento em que a investigação deixa de ser periférica e passa a mirar o centro do tabuleiro. E quando o centro do poder entra no raio de impacto, não há narrativa que segure a onda.