João Pessoa, quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Mundial de 2027 levará a seleção ao país que transformou o vôlei universitário em fenômeno
17/10/2026 08:40
Redação ON Reprodução

A lista das 32 seleções que disputarão o Mundial feminino de vôlei de 2027 foi fechada nesta semana e o Brasil, garantido desde o Sul-Americano, já conhece o cenário que terá pela frente. O torneio acontece entre 20 de agosto e 5 de setembro nos Estados Unidos e no Canadá, com a fase decisiva no Honda Center, em Anaheim, a mesma arena que receberá o vôlei dos Jogos de Los Angeles 2028. Além do título, estão em disputa três vagas olímpicas para as equipes que ainda não tiverem garantido presença na Califórnia.

Entre as sedes da fase de grupos está Omaha, no Nebraska, cidade que ajuda a explicar o momento da modalidade no país. O Omaha Supernovas, time profissional local, fechou 2025 como líder mundial de público no vôlei profissional pelo segundo ano seguido. No mesmo estado, a Universidade de Nebraska levou 92.003 pessoas a um estádio de futebol americano para uma partida de vôlei em 2023, recorde mundial de público em um evento esportivo feminino.

Para Ana Paula Zandona, treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance, esses números são consequência de uma estrutura montada muito antes do alto rendimento. Ex-levantadora na NCAA Division I, ela trabalha hoje no esporte universitário americano e participa do recrutamento de jogadoras. “O vôlei americano não cresceu de cima para baixo. A base dele está nas universidades. A menina joga no colégio, depois na faculdade, com estrutura, torcida e transmissão, e quem chega à seleção ou a uma liga profissional já passou anos competindo em alto nível sem abrir mão do estudo”.

A escala desse sistema não tem equivalente no Brasil. Na temporada 2024/25, a NCAA registrou o recorde de 554.298 atletas em modalidades de campeonato, mais de 25 mil deles estrangeiros. Somadas as três principais entidades do esporte universitário americano, cerca de 180 mil bolsas de estudo são distribuídas por ano via esporte, um volume que ultrapassa US$4 bilhões. E o caminho, agora, não termina na formatura: ligas profissionais femininas se instalaram no país e a Major League Volleyball paga salários entre US$60 mil e US$175 mil por temporada.

O Brasil chega ao Mundial com outra lógica. O país tem tradição, títulos e um trabalho de formação reconhecido internacionalmente, mas o funil aperta justamente na passagem para a vida adulta, quando as vagas nas equipes diminuem e a faculdade começa a disputar o tempo da atleta. Zandona viveu essa encruzilhada e encontrou nos Estados Unidos uma forma de continuar jogando e estudar. “O Brasil forma muito bem. A diferença está no que acontece depois dos 18 anos. Lá, a atleta que não chega ao time adulto ainda tem onde continuar jogando e se desenvolvendo. Aqui, muitas vezes ela simplesmente para”.

A treinadora não vê nisso uma fraqueza técnica do vôlei brasileiro, e sim um problema de continuidade. Em sua avaliação, jovens formadas no país costumam chegar aos 18 anos com muito mais horas de quadra do que americanas da mesma idade. “A brasileira chega com repertório, leitura de jogo e muita repetição. O que falta é um ambiente que segure essa atleta por mais quatro ou cinco anos até ela amadurecer. É nesse período que muita gente boa se perde”, afirma.

Para a seleção, o Mundial será uma disputa por medalha e por vaga olímpica. Será também uma oportunidade de ver de perto, em ginásios cheios, um modelo que transforma formação em público, audiência e carreira, e que hoje recebe parte das jogadoras que o próprio vôlei brasileiro não conseguiu manter.

Sobre

Ana Paula Zandona é treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance, com experiência no esporte universitário dos Estados Unidos. Ex-atleta de voleibol no Brasil e nos EUA, atuou como levantadora na NCAA Division I e construiu sua carreira como treinadora em diferentes programas universitários americanos. Possui experiência em planejamento de treinos, recrutamento, desenvolvimento técnico e análise de desempenho por meio de dados e ferramentas especializadas. É mestre em Administração Esportiva e Estudos do Esporte e atualmente cursa MBA em Business Analytics.

canal whatsapp banner

Compartilhe: