João Pessoa, segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Morte de brasileiro na Turquia: perícia pode esclarecer causa do óbito e identificar sinais de violência
19/10/2026 14:17
Redação ON Reprodução

A morte do brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, na Turquia, após ter sido detido por autoridades migratórias, levanta questionamentos sobre as circunstâncias do óbito. Diante das dúvidas da família sobre as informações apresentadas pelas autoridades turcas, a investigação médico-legal será fundamental para esclarecer a causa da morte, identificar eventuais sinais de violência e verificar a compatibilidade dos achados periciais com as versões divulgadas.

Segundo Caroline Daitx, médica especialista em medicina legal e perícia médica, a necropsia completa é o principal procedimento para investigar mortes suspeitas. O exame envolve a análise externa e interna do corpo, com documentação detalhada de possíveis lesões, além de exames complementares que podem identificar traumas, substâncias tóxicas e alterações nos tecidos. “A conclusão mais segura vem de três fontes juntas: a necropsia, a perícia do local onde a morte ocorreu e a investigação das circunstâncias, incluindo câmeras, testemunhas e o histórico da pessoa”, explica.

Entre os procedimentos essenciais estão exames de imagem, como radiografias e tomografias, capazes de identificar fraturas e lesões ocultas; análises toxicológicas de sangue, urina e outros materiais biológicos, para detectar álcool, drogas, medicamentos ou substâncias tóxicas; e exames histopatológicos, que permitem identificar doenças e avaliar características das lesões. A coleta de vestígios, como material sob as unhas e amostras para DNA, também pode contribuir para a investigação.

Suicídio ou morte provocada por terceiros

Uma das principais questões em mortes suspeitas é determinar se o óbito decorreu de suicídio, acidente ou ação de terceiros. De acordo com a perita, essa diferenciação depende da análise conjunta dos vestígios e das circunstâncias investigadas, já que um único achado dificilmente permite uma conclusão definitiva.

A perícia avalia a localização e a direção das lesões, possíveis marcas de contenção nos punhos, ferimentos de defesa nas mãos e antebraços e sinais de agressões anteriores. Também verifica se as características dos ferimentos são compatíveis com a dinâmica relatada.

Exames toxicológicos podem revelar a presença de substâncias capazes de comprometer a consciência ou a capacidade de reação da vítima. Em situações específicas, a investigação pode incluir uma autópsia psicológica, procedimento que busca reconstruir o comportamento e o contexto de vida da pessoa antes da morte.

Nova autópsia no Brasil pode esclarecer divergências

Diante da possibilidade de realização de uma segunda necropsia no Brasil, a especialista destaca que o procedimento pode revelar informações importantes, embora existam limitações decorrentes do tempo, da primeira autópsia e dos processos de conservação do corpo para transporte internacional. “Para o transporte internacional, o corpo normalmente passa por embalsamamento ou formolização. Esse processo altera os tecidos e prejudica muito a toxicologia”, esclarece.

Apesar dessas limitações, uma nova avaliação pode identificar fraturas ósseas, lesões profundas, trajetos de projéteis e padrões de ferimentos. Amostras de cabelo também podem auxiliar na investigação da exposição a determinadas substâncias em períodos anteriores à morte.

Para Daitx, a obtenção dos documentos e materiais produzidos pela perícia turca é tão importante quanto a possibilidade de um novo exame. Laudos completos, fotografias, radiografias, lâminas histológicas e amostras toxicológicas preservadas permitem revisar os resultados e identificar possíveis divergências. “Muitas vezes, a revisão técnica desse material esclarece mais do que um novo exame do corpo”, ressalta.

Caroline destaca ainda que, quanto mais rapidamente uma eventual segunda necropsia for realizada, maiores serão as possibilidades de preservação das evidências. No Brasil, o procedimento pode ser realizado pelo Instituto Médico Legal (IML), mediante requisição da autoridade competente, com possibilidade de participação de assistente técnico nos termos legais.

Caroline Daitx é médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica.  CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.

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