A acareação entre o tenente-coronel Mauro Cid e o general da reserva Walter Braga Netto, realizada na manhã desta terça-feira (24/6) no Supremo Tribunal Federal (STF), foi marcada por forte tensão e momentos visivelmente desconfortáveis, especialmente para Cid. Apesar do constrangimento, acentuado pela hierarquia militar entre os dois — um general diante de um tenente-coronel —, Mauro Cid manteve todas as declarações feitas em sua delação premiada, inclusive a mais grave: a entrega de R$ 150 mil em espécie, em uma caixa de sapatos, por Braga Netto.
Conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito que apura tentativa de golpe de Estado, a acareação contou com a presença do ministro Luiz Fux, do procurador-geral da República Paulo Gonet, além de advogados de outros réus investigados no caso.
Segundo relatos, Cid demonstrou desconforto evidente, evitando qualquer contato visual direto com Braga Netto. Durante toda a sessão, manteve o olhar direcionado aos ministros do STF, em especial a Moraes, que conduziu os questionamentos. A diferença de patentes entre os dois pesou no ambiente — o tenente-coronel visivelmente acuado diante de seu superior hierárquico.
Mesmo assim, Cid não recuou em suas declarações. Ele reafirmou, com detalhes, que Braga Netto lhe entregou R$ 150 mil, em dinheiro vivo, dentro de uma caixa de sapatos. O valor, segundo ele, seria destinado a militares envolvidos em um plano para assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, em um suposto complô após as eleições de 2022.
Braga Netto negou com veemência todas as acusações e chegou a acusar Cid de mentir em pelo menos duas ocasiões durante a acareação. Além da questão do dinheiro, o general negou que, em novembro de 2022, tenha participado de uma reunião em seu apartamento onde o plano de assassinato teria sido discutido. Segundo Cid, ele teria saído mais cedo do encontro por se sentir desconfortável com o teor da conversa. Braga Netto nega que essa reunião tenha acontecido nos moldes descritos por Cid.
Durante as cerca de duas horas de acareação, realizada numa sala reservada do STF, ambos estavam vestidos de terno e foram proibidos de usar celulares. A tensão entre os dois militares era evidente, mas não houve interrupções mais graves ou hostilidade direta, segundo fontes presentes.
O depoimento de Cid, apesar da tensão, reforça o peso de sua delação no inquérito do golpe e pode aumentar a pressão judicial sobre figuras de alta patente das Forças Armadas envolvidas nas investigações. A confirmação, cara a cara com Braga Netto, indica que Mauro Cid está disposto a manter suas declarações até as últimas consequências — mesmo diante da farda que outrora lhe deu ordens.

