João Pessoa, sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Menopausa muda a forma de planejar procedimentos faciais
23/10/2026 07:00
Redação ON Reprodução

A menopausa começa a aparecer com mais frequência nas conversas entre mulheres e cirurgiões plásticos sobre envelhecimento facial. Uma pesquisa anual da American Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgery (AAFPRS), maior associação de especialidade em cirurgia plástica facial do mundo, mostra que 45% dos cirurgiões faciais entrevistados perceberam aumento no número de pacientes que mencionam menopausa ou perimenopausa como motivo para buscar tratamentos estéticos.

No levantamento anterior, o percentual era de 28%, uma diferença de 17 pontos percentuais em um ano. O dado sinaliza uma mudança na relação das mulheres com essa fase da vida e também levanta uma questão médica, afinal o que muda no planejamento de procedimentos faciais quando a paciente está passando pela transição hormonal?

“Quando falamos de menopausa, não estamos falando apenas do fim da menstruação. O estrogênio atua em diferentes tecidos, e a pele também responde à mudança hormonal. Isso não significa que todas as mulheres envelheçam da mesma maneira ou na mesma velocidade, porque genética, exposição solar, tabagismo, alimentação, sono, doenças e estilo de vida continuam interferindo nesse processo”, explica a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta, especialista em menopausa.

A procura acontece em um contexto de transformações fisiológicas que podem alterar características da pele e dos tecidos da face. Durante a transição para a menopausa, a redução dos níveis de estrogênio está associada a mudanças como ressecamento, perda de elasticidade, afinamento da pele e redução do colágeno. Esses efeitos, porém, não ocorrem da mesma maneira em todas as mulheres, já que fatores como genética, exposição solar, tabagismo, alimentação, sono, doenças e estilo de vida também interferem no envelhecimento cutâneo.

Na cirurgia plástica facial, essas mudanças tornam ainda mais importante entender a origem de cada alteração antes de definir uma intervenção. Uma queixa relacionada à flacidez, por exemplo, pode envolver pele, gordura, musculatura, estrutura óssea e distribuição de volume, o que faz com que pacientes com queixas semelhantes possam ter indicações diferentes.

“Uma mulher pode chegar ao consultório incomodada com a pálpebra, o contorno da mandíbula ou a flacidez, mas a indicação não começa pelo nome do procedimento. Precisamos avaliar pele, gordura, musculatura, estrutura óssea e proporções faciais para entender de onde vem aquela mudança e o que efetivamente pode ser tratado”, afirma o cirurgião plástico David Di Sessa, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Entre os procedimentos citados pela associação estão facelift e blefaroplastia, enquanto tratamentos não cirúrgicos incluem tecnologias para a pele, toxina botulínica e preenchedores. Discussões científicas recentes sobre pacientes na perimenopausa e na menopausa também incluem bioestimuladores, ácido hialurônico, laser e outras tecnologias, mas reforçam que as possibilidades apresentam indicações e níveis de evidência diferentes e devem ser escolhidas de acordo com as características de cada paciente.

“Não existe um tratamento estético da menopausa. Existe uma mulher passando por uma mudança hormonal que precisa ser avaliada por inteiro. Terapia hormonal, por exemplo, pode ter efeitos sobre colágeno, hidratação e elasticidade, mas sua indicação é clínica e não deve ser feita apenas com finalidade estética”, explica Fabiane Berta.

A influência hormonal também entra na discussão sobre recuperação cirúrgica. Uma revisão publicada em 2025 na revista Frontiers in Surgery, aponta que o estrogênio participa de mecanismos relacionados à formação de novos vasos, regulação do colágeno e cicatrização. Os pesquisadores observam que a redução hormonal após a menopausa, pode estar associada a menor capacidade de reparação, embora isso não permita prever isoladamente como será o pós-operatório de uma paciente.

“A menopausa, isoladamente, não determina se alguém pode ou não realizar uma cirurgia facial. O planejamento precisa considerar saúde geral, qualidade dos tecidos, doenças preexistentes, medicamentos, tabagismo e condições individuais de cicatrização. Quanto mais precisa for essa avaliação antes da cirurgia, mais seguro se torna o planejamento do procedimento e da recuperação”, complementa David.

A mudança observada pela AAFPRS, mostra que a menopausa passa a ser verbalizada pelas próprias mulheres também no momento de procurar tratamentos faciais. Para Fabiane, esse movimento pode ampliar a discussão sobre envelhecimento sem reduzir uma etapa complexa da vida feminina à aparência. “A face pode mostrar uma parte da mudança hormonal, mas ela nunca conta a história inteira. A medicina precisa olhar para o que a mulher vê no espelho e, ao mesmo tempo, para tudo o que está acontecendo com o organismo dela,” conclui a ginecologista.

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