A movimentação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para apoiar um novo mandato de Hugo Motta (Republicanos-PB) na presidência da Câmara dos Deputados, em 2027, acrescenta uma peça importante ao complicado tabuleiro político da Paraíba. E pode funcionar como uma espécie de compensação ao grupo do deputado paraibano depois de Lula praticamente fechar as duas portas disponíveis para o Senado no Estado.
Na disputa para as duas vagas de senador, Lula já declarou apoio ao ex-governador João Azevêdo e à reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB). As escolhas deixaram sem espaço o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley (Republicanos), pai de Hugo Motta, que também disputa uma cadeira no Senado e esperava contar com o apoio do presidente.
A situação provocou desconforto no grupo de Hugo. O presidente da Câmara ocupa posição estratégica na política nacional, mantém interlocução com o Palácio do Planalto e integra uma engrenagem partidária fundamental para a governabilidade. Ainda assim, Lula não abriu mão dos compromissos políticos assumidos com João Azevêdo e Veneziano.
É nesse contexto que ganha significado a articulação nacional em torno da permanência de Hugo Motta no comando da Câmara.
Embora não haja indicação pública de que uma questão esteja formalmente condicionada à outra, existe uma lógica política na movimentação: se Lula não conseguiu contemplar Nabor na disputa pelo Senado na Paraíba, poderá prestigiar Hugo Motta em um projeto igualmente importante para o grupo político da família, garantindo respaldo para sua recondução à presidência da Câmara.
A negociação nacional
O apoio a Hugo faz parte de uma negociação mais ampla que Lula e dirigentes do Centrão vêm construindo para o cenário pós-eleitoral.
Caso seja reeleito presidente da República em outubro, Lula sinalizou que pretende apoiar Hugo Motta para mais um mandato no comando da Câmara, em 2027. A articulação envolve diretamente o senador Ciro Nogueira (PP-PI), uma das principais lideranças do Centrão e padrinho político de Motta no plano nacional.
O entendimento ocorre justamente no momento em que partidos do Centrão redesenham suas posições para a eleição presidencial. PP e União Brasil, reunidos em uma federação, optaram pela neutralidade na disputa pelo Palácio do Planalto, enquanto importantes lideranças desse campo político reduziram o alinhamento com a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Além de Hugo Motta, as negociações também alcançam o Senado. Lula tenta reconstruir a relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), depois de sucessivos atritos entre o Palácio do Planalto e o Congresso.
Lula e Alcolumbre participaram, na terça-feira (4), de um jantar na casa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com a presença também do ministro Cristiano Zanin. O encontro serviu para uma tentativa de armistício depois das divergências acumuladas entre o governo e o presidente do Senado.
Entre os pontos de tensão está a derrota sofrida pelo governo no Senado com a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no Supremo. Lula atribuiu parte importante daquela derrota à atuação de Alcolumbre.
Apesar das diferenças, os dois lados tentam reconstruir as pontes. Lula deverá voltar a conversar com Alcolumbre na próxima semana, com o retorno dos trabalhos do Congresso.
Hugo no centro do tabuleiro
Para Hugo Motta, porém, a sinalização presidencial tem peso especial.
Ele chegou à presidência da Câmara como um dos deputados mais jovens a ocupar o posto e passou a comandar uma Casa fragmentada, na qual o governo não possui maioria própria. Sua eventual reeleição dependerá novamente de uma composição ampla, envolvendo partidos governistas e principalmente o Centrão.
O apoio de um presidente da República reeleito teria, portanto, peso considerável nessa construção.
E é exatamente aí que Brasília e Paraíba acabam se encontrando.
Lula já fez suas escolhas para o Senado paraibano e, até agora, Nabor Wanderley ficou fora delas. Se não há espaço para acomodar todos no palanque estadual, a política nacional oferece outra possibilidade de composição.
Nabor pode não ter recebido o apoio presidencial que desejava para chegar ao Senado. Hugo Motta, porém, pode receber de Lula um apoio decisivo para continuar sentado em uma das cadeiras mais poderosas da República.
