A comemoração mal terminou e a próxima disputa já entrou no horizonte de Lula. Um dia depois de conquistar o quarto mandato, o presidente recebeu, nesta segunda-feira (26), no Palácio da Alvorada, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Oficialmente apresentado como uma visita de cortesia, o encontro também marca a aproximação entre três personagens interessados na construção da governabilidade a partir de 2027. Os dois parlamentares buscam a reeleição para o comando das Casas e devem contar com o apoio governista.
Para o paraibano Hugo Motta, o caminho se apresenta menos tortuoso. Embora o avanço da direita tenha fortalecido o PL, que elegeu 121 deputados e passou a cogitar o nome de Sóstenes Cavalcante para a presidência, Motta dispõe de uma articulação que atravessa partidos do centro e da esquerda. O Republicanos sustenta sua candidatura, e o apoio reunido pelo atual presidente dificulta a formação de uma maioria alternativa. A disputa existe, mas o cenário da Câmara é considerado menos acirrado que o do Senado.
Há também uma questão de distribuição de poder. A possibilidade de o PL controlar simultaneamente Câmara e Senado tende a encontrar resistência entre partidos do Centrão, que disputam influência, cargos e participação nas decisões do Congresso. Nesse quadro, a permanência de Motta pode funcionar como ponto de convergência entre forças que divergem sobre Lula, mas compartilham o interesse de preservar espaço próprio. É uma leitura do equilíbrio político em formação, ainda sujeita às negociações até fevereiro.
No Senado, o confronto tem um ingrediente adicional: o interesse da direita em avançar contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Rogério Marinho (PL-RN) é defendido por setores da oposição para enfrentar Alcolumbre, enquanto o PL terá 29 das 81 cadeiras. Cabe exclusivamente ao Senado processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade, o que torna seu comando especialmente estratégico para o bolsonarismo. Alcolumbre, por sua vez, afirma a interlocutores ter pelo menos 48 votos e rejeita pautar o impeachment de integrantes da Corte.
A relação entre Lula e Alcolumbre também passa pela vaga aberta no Supremo com a saída de Luís Roberto Barroso. O presidente do Senado defende Rodrigo Pacheco, ex-presidente da Casa e atual ministro do TCU, para o posto. Uma eventual indicação ainda neste ano permitiria submetê-la à composição atual do Senado, antes da posse dos novos parlamentares. A possibilidade está em articulação, mas não há acordo fechado anunciado. Além dessa cadeira, estão previstas as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, em 2028, Cármen Lúcia, em 2029, e Gilmar Mendes, em 2030. Para Lula, a negociação com o Congresso começa agora e terá consequências por todo o próximo mandato. Para Hugo Motta, abre uma oportunidade de consolidar sua permanência no centro das decisões nacionais.

