Dois jornalistas paraibanos estão por trás de um livro que revisita, em forma de crônicas, a trajetória de Eduardo Campos. A obra “Eduardo Campos – Em Histórias” (Ediouro) será lançada na primeira quinzena de abril, no Recife, com possibilidades também de ser lançada em João Pessoa.
O portal O Norte Online conversou com o jornalista Evaldo Costa, natural de Parari, no Cariri paraibano, um dos autores do livro e um dos nomes mais respeitados da imprensa pernambucana. Com passagens por veículos como Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, O Estado de S. Paulo e Correio Braziliense, ele foi também o último secretário de Comunicação do governo Eduardo Campos, atuando diretamente na construção da estratégia política e da imagem pública do ex-governador.
O livro foi escrito em parceria com o jornalista Ítalo Rocha, nascido em Sousa, no Sertão da Paraíba, que construiu sua carreira em Pernambuco, onde atuou por décadas na Rede Globo.
A obra reúne textos inspirados em histórias e vivências acumuladas ao longo dos anos de convivência e cobertura política, compondo um retrato leve e fragmentado de diferentes momentos da vida pública e pessoal de Eduardo Campos.
A seguir, a entrevista exclusiva que o jornalista Evaldo Costa concedeu a Marcondes Brito:
Onorteonline – O livro deixa claro que não se trata de uma biografia oficial. Qual foi a principal preocupação de vocês ao retratar Eduardo Campos de forma mais íntima?
Evaldo – Obviamente, está atrasada a publicação de uma biografia de Eduardo Campos. Trata-se de um político que realmente marcou uma época, mesmo tendo tido uma trajetória tão curta. Para você ver como a passagem dele foi rápida, basta lembrar que em agosto, mais precisamente no dia 10, ele completaria 61 anos. Ou seja, era um homem jovem, um político com muita energia e um futuro brilhante pela frente. Mas uma biografia exigiria um trabalho de muito mais fôlego do que era possível ser feito neste momento. Independentemente de qualquer condicionante, eu vou escrever uma biografia de Eduardo Campos. Mas ainda não chegou a hora.
Onorteonline – Depois de tantos anos da morte de Eduardo Campos, por que vocês consideraram que este era o momento certo para lançar essa obra?
Evaldo – Este livro deveria ter saído no ano passado, porque fazia parte de um plano editorial para marcar as comemorações do 60º aniversário, que não aconteceu. Essa é uma das razões, aliás, pelas quais optamos por escrever um livro de causos. Mesmo com esse projeto mais modesto, estamos chegando atrasados.
Onorteonline – O livro reúne episódios e bastidores. Qual foi o relato mais surpreendente ou pouco conhecido que vocês descobriram durante a pesquisa?
Evaldo – A princípio, todas as histórias são curiosas, muitas delas engraçadas, porque esse era o projeto. Se você olhar bem, vai perceber que é um esboço de biografia, porque são contados episódios de todas as fases da vida de Eduardo Campos. Mas não com esse enfoque, não com esse propósito. São traços biográficos envoltos em histórias leves.
Onorteonline – Vocês trazem depoimentos de pessoas próximas. Houve algum episódio em que as versões divergiam muito?
Evaldo – Não há depoimentos no sentido tradicional. Nós conversamos com as pessoas e recolhemos delas histórias, mas a narração é dos autores. Pode haver alguém que não goste do que foi escrito. É a nossa visão de como se passaram as coisas. Claro, tivemos cuidado. Afinal, o objetivo não era criar polêmica.
Onorteonline – E sobre o trágico acidente em Santos-SP, que o levou à morte, como vocês lidaram com isso?
Evaldo – No dia em que Eduardo Campos morreu, em 13 de agosto de 2014, eu escrevi um artigo que saiu no dia seguinte no Jornal do Comércio. Naquele texto, eu dizia que os amigos, a família e os companheiros de luta política estavam todos fortemente impactados pelo modo violento como sua trajetória foi interrompida. Mas quem mais sentiria seria o Brasil.
Onorteonline – Eduardo Campos era visto como uma das principais lideranças nacionais da sua geração. Na avaliação de vocês, qual era o principal diferencial político dele?
Evaldo – O Brasil tinha conseguido fazer uma reforma econômica que estabilizou a economia, encerrando a era da hiperinflação. Tinha avançado nas políticas sociais, dando a elas dimensão nacional e atacando a grande chaga do país, que era — e de algum modo ainda é — a desigualdade social e regional. Mas faltava a grande reforma política, que colocaria em outro patamar a forma de fazer política no Brasil. E Eduardo Campos era a liderança talhada para essa realização.
Onorteonline – Se estivesse vivo hoje, em que lugar Eduardo Campos estaria no cenário político brasileiro? Presidência, liderança de oposição ou outro papel?
Evaldo – Se Eduardo estivesse vivo, a extrema direita não estaria conquistando eleitores de centro e fazendo parecer que metade dos brasileiros são fascistas. Essa grande distorção não teria sentido em um país onde Eduardo Campos fosse a liderança que ele estava pronto para ser.
Onorteonline – O livro aborda também momentos de disputa política. Que tipo de bastidor ajuda a entender melhor como ele jogava o jogo político?
Evaldo – Não contamos histórias de tensão propriamente dita, mas mostramos com leveza episódios duros das disputas políticas. Porque esse era o jeito dele. Havia os embates, inevitáveis, havia vitoriosos e derrotados, mas sempre havia um caminho para seguir em frente, rumo a novas disputas, nas quais os sinais poderiam até se inverter.
Onorteonline – Ao longo da obra, Eduardo Campos aparece mais como gestor, articulador ou estrategista? Qual dessas facetas prevalece?
Evaldo – Eduardo é um caso raríssimo na política brasileira. Eu não conheci tantos líderes capazes de serem tão bons na macro política quanto nas articulações municipais, por exemplo. Ele foi um grande parlamentar e um grande executivo. Um gestor como poucos, capaz de dar nó em pingo d’água, construindo articulações que ninguém mais seria capaz de fazer.
Onorteonline – Em um Brasil tão polarizado como o atual, o estilo de Eduardo Campos teria espaço ou ele seria engolido por esse ambiente mais radicalizado?
Evaldo – O legado de Eduardo mostra exatamente o contrário disso. Ele era um construtor de entendimentos, alguém com enorme capacidade de diálogo. Tinha habilidade para reunir forças distintas em torno de projetos políticos vencedores.
Onorteonline – Depois de mergulhar na trajetória dele, qual legado vocês acreditam que ainda permanece vivo na política brasileira — e o que acabou se perdendo?
Evaldo – O legado de Eduardo é o da construção do entendimento. Da capacidade de, pelo diálogo, constituir projetos políticos vencedores. Mas sempre com um lado. Como herdeiro de Miguel Arraes, algo que ele nunca esquecia, Eduardo tinha lado: o lado dos mais fracos, das pessoas que mais precisavam da ação do Estado. E nisso ele foi um dos maiores.

