João Pessoa, quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Laboratório de Anatomia Humana da UEPB realiza cerimônia inédita em homenagem a cadáver desconhecido
14/10/2026 14:38
Codecom/UEPB Codecom/UEPB

Uma missão pós-vida e a contribuição numa formação ética, humana e respeitosa. Pela primeira vez em sua história, o Laboratório de Anatomia Humana do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), realizou, na quarta-feira (30), uma cerimônia em homenagem ao cadáver desconhecido ou ao doador de corpo.

Tradicionalmente, esse tipo de cerimônia é um rito de passagem realizado para estudantes ingressantes da área de Saúde no início das aulas de Anatomia Humana. Na UEPB, a iniciativa inédita foi fruto de um projeto de extensão desenvolvido pelo técnico do Laboratório de Anatomia, Rudiney Araújo. A novidade foi prestigiada por estudantes, professores(as) do CCSB e técnicos(as) do Laboratório. A perspectiva é que a partir de agora, a cerimônia se torne frequente a cada início de semestre envolvendo estudantes de Odontologia, Fisioterapia, Farmácia, Enfermagem e Ciências Biológicas.

O projeto de extensão surgiu a partir de uma demanda do Laboratório de Anatomia da Instituição que necessitava dos cadáveres humanos para prosseguir na formação dos estudantes. Diante da dificuldade de encontrar corpos para estudo, para formar profissionais com qualidade, os técnicos do Laboratório criaram o projeto extensionista. A ideia é conscientizar as pessoas da importância de doar o seu corpo em vida em favor da ciência e da vida. “Hoje a gente tem uma legislação que garante que as pessoas possam em vida fazer a doação do seu corpo. No momento em que ocorre o óbito, a família entra em contato com o Laboratório e a gente prepara esse corpo para o ensino e a pesquisa”, explicou Rudiney Araújo.

Ele argumenta que o estudo dos futuros profissionais em um cadáver é bem mais eficiente do que o estudo feito em um boneco, abordando todas as especificidades de um estudo. “A gente costuma perguntar a sociedade se ela gostaria de ser atendido por um médico, um enfermeiro ou um fisioterapeuta que estudou e treinou em um cadáver ou em um boneco. Elas preferem um profissional que fez estudo um cadáver”, acrescentou.

Rudiney Araújo disse que a próxima etapa do projeto é ir ao encontro da sociedade, usando os diversos meios de comunicação para conscientizar a importância da doação do corpo, visto que no estudo da saúde, nada substitui o cadáver. O técnico ainda explicou que ao dar entrada no Laboratório, o cadáver passa por todo um processo de cuidado e conservação antes de ficar pronto para ser estudado. Existe todo um manejo para deixar o corpo propício para o estudo e a pesquisa por longos anos. Inicialmente é feito um processo de formolização, onde uma substância é aplicada e distribuída por todo o corpo, cessando assim, o processo de decomposição, e permitindo a conservação por longos anos.

Concluído esse procedimento, o corpo é colocado imerso na substância formol e somente após alguns meses, ele estará apto para a realização da técnica de secação que é a preparação para a sala de estudo para a aula mais eficaz. Para Rudiney, a cerimônia de homenagem a cadáver desconhecido é uma forma da Universidade externar a sua gratidão ao cadáver que traz toda uma história de vida consigo, com família, sonhos e realizações.

O outro técnico envolvido no projeto, Everson Silva, lembrou que historicamente os Laboratórios de Anatomia das instituições de ensino do Brasil enfrentam dificuldades em conseguir corpos humanos para estudo. No passado, essas instituições recorriam a corpos indigentes que não tinham identificação e naturalmente eram enviados para o estudo. Para ele, a substituição desses corpos e a implantação de um programa de doação voluntária é importante para o Laboratório ter uma renovação contínua e uma melhor formação.

A cerimônia inédita foi acompanhada pela diretora do CCBS, professora Giselda Félix Coutinho, que já época de estudante participou de treinamentos no Laboratório de Anatomia. Para ela, a cerimônia foi um momento histórico na Instituição. “Trata-se de um marco institucional expressivo. Enquanto instituição pública que utiliza cadáveres no ensino, reconhecemos a relevância fundamental dessa prática para a formação dos estudantes e para o fortalecimento da humanização na saúde. A vivência prática com o corpo humano difere substancialmente do aprendizado pautado apenas em manequins ou modelos anatômicos. Por isso, além de cultivar o respeito ético no manuseio desses corpos, faz-se necessário conscientizar a sociedade sobre a importância do ato da doação para o avanço da ciência e para o desenvolvimento do cuidado humanizado”, destacou a diretora.

O professor André Peçanha, diretor adjunto do CCBS, destacou que o contato dos(as) estudantes com os cadáveres do Laboratório de Anatomia contribui para a formação dos futuros profissionais, para além do conhecimento técnico, mas ético e respeitoso. “Quando o estudante tem o contato com esses cadáveres, a primeira coisa que vem na cabeça é o respeito. Eles não conhecem aquela pessoa, não sabem a história dela, mas ela se torna um elemento importante na formação profissional. Entender quem foi aquela pessoa já ajuda bastante. O respeito é a grande formação”, destacou o professor.

Uma vida que se tornou fonte do conhecimento
No Laboratório de Anatomia, o respeito dos(as) estudantes que têm contato com os cadáveres não é apenas uma norma de bioética. É uma exigência. E todos entendem o valor desse respeito. O coordenador geral dos laboratórios da área de saúde da UEPB, o professor Délcio Felismino, enfatizou o papel desses cadáveres na formação dos estudantes de saúde. Por isso tanto respeito. Para ele, ao morrerem, esses cadáveres se tornam mestres dos futuros profissionais, visto que a partir do momento que dão entrada no Laboratório, servem de base para o ensino, para o desenvolvimento e para o aprendizado.

O Laboratório de Anatomia desempenha um papel fundamental na formação dos(as) estudantes da área de Saúde, pois ajuda os futuros profissionais a entender o funcionamento da máquina humana. O espaço é um dos maiores do CCBS, estando localizado no Departamento de Biologia, e atende a maioria dos cursos das ciências biométricas, entre eles, Farmácia, Odontologia, Ciências Biologicas, Enfermagem, Educação Física e Fisioterapia.

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