João Pessoa, quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Adenocarcinoma pulmonar: cirurgia pode confirmar diagnóstico e tratar o câncer
14/10/2026 17:27
Redação ON Reprodução

O adenocarcinoma é o tipo mais frequente de câncer de pulmão e, principalmente quando identificado em estádio inicial, pode ser tratado com cirurgia. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) explica que, em determinadas situações, a retirada do nódulo permite tanto confirmar o diagnóstico, por meio da análise do tecido, quanto remover completamente o tumor, em casos selecionados, sem a necessidade de uma segunda operação

A cirurgia para retirada de um nódulo pulmonar pode permitir a confirmação do diagnóstico de câncer e, dependendo das características da lesão, representar o próprio tratamento da doença. Esse foi o procedimento realizado no papa Leão XIV, nesta terça-feira (13), no Hospital Policlínico Gemelli, em Roma. Os médicos retiraram o lobo inferior do pulmão direito do pontífice por meio de uma técnica videoassistida, que utiliza pequenas incisões e uma câmera para orientar a operação. 

A análise do tecido realizada durante a cirurgia confirmou o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, o tipo mais comum de câncer de pulmão, conforme comunicado divulgado pelo Vaticano. O procedimento chama a atenção para o papel da cirurgia no diagnóstico e no tratamento da doença. Embora a retirada completa de uma lesão possa ter intenção curativa, essa possibilidade depende de fatores como o tamanho do tumor, sua localização, a extensão da doença e as condições clínicas do paciente. A confirmação do câncer durante a operação, por si só, não permite determinar o estágio definitivo da doença nem estabelecer se serão necessários tratamentos complementares, como quimioterapia, imunoterapia ou terapias-alvo. Essas decisões dependem da avaliação completa do material retirado e de outros exames clínicos e de imagem.

O câncer de pulmão é o terceiro tumor maligno, excluindo os tumores de pele não melanoma, mais incidente nos homens e o quarto entre as mulheres, com mais de 35 mil novos casos estimados para cada ano do triênio 2026-2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). O adenocarcinoma é o tipo mais comum de câncer de pulmão e faz parte de um grupo de tumores conhecido como câncer de pulmão de não pequenas células, que representa a maioria dos casos da doença. Ele se origina de células do tecido pulmonar com características glandulares, geralmente nas regiões periféricas dos pulmões. Geralmente, surge nas regiões mais externas do órgão e é o tipo mais frequente entre pessoas que nunca fumaram. Apesar disso, o tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o desenvolvimento do câncer de pulmão.

A exposição passiva à fumaça do cigarro, à poluição atmosférica, ao radônio, assim como para substâncias cancerígenas presentes em determinados ambientes de trabalho também está associada ao desenvolvimento da doença. Ademais, alterações genéticas adquiridas pelas células tumorais podem influenciar seu comportamento e orientar a escolha de determinados tratamentos.

Um dos desafios do adenocarcinoma pulmonar é que ele pode se desenvolver sem provocar sintomas nas fases iniciais. Quando aparecem, as manifestações podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão, perda de peso involuntária e presença de sangue no escarro. Em alguns pacientes, a doença é identificada incidentalmente, durante exames de imagem realizados por outros motivos.

Quando a cirurgia pode diagnosticar e tratar o câncer

A investigação de um nódulo pulmonar começa, geralmente, com exames de imagem, especialmente a tomografia computadorizada. Dependendo das características da lesão, os médicos podem recomendar acompanhamento periódico, exames complementares ou a coleta de material para análise. Essa coleta pode ser realizada por broncoscopia, por punção guiada por imagem ou por cirurgia.

Na biópsia cirúrgica, o tecido suspeito é retirado para avaliação pelo patologista, profissional responsável por examinar as características das células e identificar a presença de câncer. Em determinadas situações, a remoção completa da lesão pode cumprir também uma finalidade terapêutica, evitando a necessidade de uma segunda operação para retirar o tumor.

Isso pode ocorrer, por exemplo, quando os exames identificam uma lesão com características suspeitas de malignidade, mas a confirmação definitiva depende da análise do tecido. Se o tumor estiver localizado e a operação contemplar a retirada completa da doença, com margens adequadas e avaliação dos linfonodos quando indicada, o procedimento poderá representar o tratamento cirúrgico definitivo.

Quando há suspeita de câncer de pulmão em estágio inicial, a cirurgia pode envolver a retirada de uma pequena porção do órgão, de um segmento anatômico ou de um lobo pulmonar inteiro. A lobectomia, nome dado à retirada de um dos lobos do pulmão, permanece uma das principais operações para o tratamento de tumores localizados. Em casos selecionados, especialmente de lesões pequenas e periféricas, a segmentectomia anatômica pode oferecer controle da doença preservando maior quantidade de tecido pulmonar.

A operação também pode incluir a avaliação ou retirada de linfonodos, pequenas estruturas do sistema linfático que ajudam a determinar se houve disseminação do câncer. O resultado da análise do tecido retirado, associado aos demais exames, permite estabelecer o diagnóstico definitivo, avaliar a extensão da doença e orientar a necessidade de tratamentos complementares.

Técnicas menos invasivas ampliam as possibilidades de tratamento

Nas últimas décadas, a cirurgia do câncer de pulmão passou por avanços importantes, especialmente com a utilização de técnicas minimamente invasivas. Entre elas estão a cirurgia torácica videoassistida e a cirurgia robótica, que permitem realizar operações por pequenas incisões, com auxílio de câmeras e instrumentos específicos.

Na técnica videoassistida, o cirurgião utiliza uma câmera introduzida na cavidade torácica para visualizar as estruturas internas e orientar a retirada do tecido pulmonar. Diferentemente da cirurgia aberta convencional, que geralmente exige uma incisão maior, a abordagem minimamente invasiva pode proporcionar menos dor no pós-operatório, menor tempo de internação e recuperação mais rápida em pacientes adequadamente selecionados.

A escolha da técnica depende das características do tumor, de sua localização e das condições clínicas do paciente. Independentemente da abordagem, o objetivo é realizar a retirada adequada da doença, respeitando os princípios de segurança e controle oncológico.

A avaliação pré-operatória também é fundamental. Como os pulmões são responsáveis pelas trocas gasosas que permitem a oxigenação do organismo, a retirada de parte do órgão exige uma análise cuidadosa da capacidade respiratória. Exames de função pulmonar, avaliação cardiovascular e outros testes ajudam a determinar se o paciente poderá tolerar a operação e qual extensão de retirada é mais adequada.

Nem todos os pacientes têm indicação de cirurgia

Embora a cirurgia seja um dos principais tratamentos com intenção curativa para o câncer de pulmão de não pequenas células em estágios iniciais, sua indicação não é automática. O estágio da doença, definido pela extensão do tumor e pela presença ou ausência de disseminação para linfonodos e outros órgãos, é determinante para a escolha terapêutica.

Nos tumores restritos ao pulmão, a retirada cirúrgica pode oferecer possibilidades importantes de cura. Em alguns casos de doença localmente avançada, a operação também pode fazer parte do tratamento, geralmente combinada a outras modalidades. Já quando o câncer apresenta metástases em órgãos distantes, a cirurgia para retirada do tumor pulmonar deixa de ser a principal estratégia para a maioria dos pacientes, embora possa ser considerada em situações específicas.

O tratamento também pode envolver quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo e radioterapia, utilizadas isoladamente ou em diferentes combinações. Em determinados pacientes, esses recursos são empregados antes da cirurgia, para reduzir a extensão da doença, ou depois da operação, com o objetivo de diminuir o risco de recidiva.

No adenocarcinoma pulmonar, a análise molecular do tumor em laboratório também tem importância crescente. A identificação de alterações em genes como EGFR, ALK e ROS1, entre outros, pode orientar a utilização de medicamentos direcionados a características específicas das células cancerígenas. A indicação depende do estágio da doença, dos resultados dos exames e das opções terapêuticas disponíveis.

Segundo o coordenador da Comissão de Tumores Torácicos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), Erlon de Ávila Carvalho, um dos principais desafios continua sendo a identificação da doença antes que ela esteja muito avançada. “Infelizmente, não é raro recebermos pacientes com câncer de pulmão em estágio muito avançado, alguns deles com rápida deterioração clínica antes mesmo que toda a investigação diagnóstica seja concluída e a estratégia terapêutica possa ser definida. Essa é uma realidade que enfrentamos na prática clínica e reforça a importância do diagnóstico precoce”, afirma.

Diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de cura

A identificação de tumores pulmonares em estágios iniciais amplia as possibilidades de tratamento com intenção curativa. Entretanto, como muitos pacientes não apresentam sintomas no início da doença, a detecção precoce permanece um desafio.

Uma das estratégias estudadas e utilizadas em programas de rastreamento é a tomografia computadorizada de baixa dose, indicada para grupos específicos de pessoas com maior risco de desenvolver câncer de pulmão, principalmente em razão do histórico de tabagismo. O exame permite identificar pequenas alterações pulmonares antes do aparecimento de manifestações clínicas. A estratégia, por sua vez, não possui uma diretriz nacional para a sua realização. 

Isso não significa que todo nódulo identificado seja um câncer ou precise ser retirado. Muitas dessas alterações são benignas, e a decisão sobre a necessidade de investigação ou cirurgia considera fatores como tamanho, formato, crescimento ao longo do tempo e características individuais do paciente.

Quando a suspeita de malignidade é elevada, a avaliação por uma equipe especializada permite definir a estratégia mais adequada, incluindo a possibilidade de uma cirurgia que reúna diagnóstico e tratamento. Essa decisão deve considerar tanto a necessidade de confirmar a natureza da lesão quanto a possibilidade de removê-la completamente, preservando, sempre que possível, a função pulmonar.

A SBCO explica que o diagnóstico oportuno e o acesso a equipes multidisciplinares são fundamentais para que os pacientes possam se beneficiar dos avanços no tratamento do câncer de pulmão. A avaliação individualizada permite identificar aqueles que têm indicação cirúrgica e definir a melhor combinação de tratamentos para cada situação.

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