Neste sábado (28), às 16h30, o Museu de Arte Popular da Paraíba (MAPP) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, recebe um duplo lançamento de livros. Trata-se de “Irmã Dulce em quadrinhos e quadrinhas”, da historiadora Thuca Kércia Morais de Lima, e da estreia literária do indígena Marcelo Kariri, com a ficção “O meu pé esquerdo favorito”. As obras foram contempladas pelo Edital de Fomento Biliu de Campina (2024) e viabilizadas com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, do Ministério da Cultura. A entrada é franca.
“Irmã Dulce em quadrinhos e quadrinhas”, sai pela Editora Meroveu, tem 40 páginas e traz ilustrações em colaboração com o Coletivo Nômade, contando, ainda, com prefácio do padre Júlio Lancelotti e posfácio da escritora Maria Valéria Rezende. Segundo Thuca, a ideia surgiu aproveitando um contexto de proliferação das biografias feitas nesse estilo. “Tivemos muitas iniciativas, em especial aqui na Paraíba, através da Coleção Primeira Leitura, que resgatou personalidades. Ela não existe mais, mas várias outras pequenas editoras se lançaram no mercado com esse propósito. Escrevi, inclusive, ‘Paulo Freire em Quadrinhos’, que foi publicado pela Editora da UEPB, em 2022, e tudo foi praticamente criado junto, é de uma mesma época”, explicou.
Escrever sobre Irmã Dulce partiu da curiosidade da autora. “Já havia visto algumas produções audiovisuais a respeito dela e acabei comprando biografias que estavam sendo lançadas naquele período, coisa de cinco, seis anos atrás. Depois dessas leituras, comecei rascunhando um roteiro parecido com a de Paulo Freire, mas acabei não publicando, apenas guardei. Com a oportunidade desse edital, fui contemplada e finalmente saiu”, contou.
Thuca acrescentou que, no processo da escrita, seu objetivo não era fazer uma biografia convencional. “Queria um recorte diferente. E aí, mergulhando na personalidade que ela era, que gostava de música, poesia, a Irmã Dulce tocava sanfona… É um exemplo de pessoa religiosa, concentrada na caridade, no servir, mas também voltada para a cultura, havia essa valorização por parte dela. Então me veio um insight, que podia ser uma historinha ilustrada e rimada, por isso estudei um pouco sobre métrica e acabei me jogando nos versinhos. O roteiro é rimado, tanto as narrações, quanto as falas dos personagens, acontecem em quadrinhas, e tive a felicidade de encontrar uma equipe excelente. A história foi ilustrada por quatro estudantes de Design da UFCG”, detalhou.
Para a autora, a obra igualmente contém uma reflexão acerca da contemporaneidade. “Irmã Dulce me chama muito a atenção referente à atualidade, ao fato de boa parte das pessoas não entender a caridade, a compaixão, o desejo sincero de ajudar os outros. Eu falo da filantropia, da empatia, do ato de doação que alguns ainda têm e desse estilo de vida tão observado hoje, em que não importa a dor alheia, a nossa mente parece ser treinada para ver uma situação de vulnerabilidade e tristeza, e em dois minutos a gente esquece, aquilo já não nos faz mais sofrer. Pensar que há irmãs dulces por aí foi o que me motivou a escrever esse livro, de modo a valorizá-las”, pontuou.
A alegria como fio da história indígena
Dá para imaginar a história indígena de um jeito alegre? Marcelo Kariri, com o romance “O meu pé esquerdo favorito”, queria mostrar que sim. O livro foi publicado via Editora Papel da Palavra e dispõe de 125 páginas. “Tudo começou com uma insatisfação literária, digamos assim, pois não conseguia encontrar narrativas que representassem os pontos que eu desejava. Quando se fala desta temática, se vê resistência indígena e muito pós-colonialismo, a relação entre o indígena e a colonização. E muitas vezes é algo triste, e não era isso o que buscava. Meu objetivo era escrever de um modo que não só os indígenas, mas que qualquer pessoa, ao ler, tentasse entender melhor o que havia antes da colonização e principalmente ficasse feliz com o que foi exposto. O motivo essencial de me basear no ano de 1054, 500 anos antes da colonização, é já para não ter o perigo de abordar esse tópico, mas focar em aspectos positivos da cultura. Então o livro é bem influenciado pela cultura cariri. Usei bastante das pesquisas da UEPB para saber alguns rituais fúnebres, o que se comia, se havia alguma fibra específica que eles utilizavam e destacar esses elementos culturais antes da colonização, aqui dos indígenas do sertão”, informou.
No referido ano, além disso, deu-se um evento cósmico, usado por Marcelo, contextualizando a ficção. “Realmente aconteceu, uma supernova explodiu no céu, e por 23 dias havia dois sóis na Terra. A ocorrência foi interpretada por várias culturas, de diversas regiões. E meu intento era que esse fosse o pontapé para contar um pouco dessa visão, que não é única, posto que cada ramificação do povo acredita numa coisa diferente, mas a ideia era compor uma junção. Para isso, optei pela questão dos sonhos, dada a importância, não só para mim, porque acho os sonhos uma fonte de criatividade, mas que vejo que é algo frequente em povos indígenas, em geral, eles valorizam os sonhos. Minha avó também era assim e por isso eu trouxe esse olhar para o livro. A primeira parte tem muitos sonhos, e a maioria de fato sonhei, ou algum familiar meu”, revelou.
Outro aspecto fundamental que o autor desejava expor diz respeito à diferenciação entre a cultura sertaneja e dos cariris, e a cultura amazônica ou dos tupis. “Quando muita gente pensa em indígena, imagina ou aqueles aqui do Litoral, tupi, no contato com a colonização, ou da Amazônia, geralmente os indígenas mais atuais. E ambos são tupis, não são cariris. Não são do macrogrupo G, que é como a academia denomina os cariris. Assim, queria também traçar alguns pontos de diferença entre essas duas culturas. Daí trouxe a mitologia brasileira, que é a figura do Boitatá, que o pessoal pensa quando se fala em cultura indígena, e detalhei isso numa visão dos cariris. Por exemplo, aparece o Boitatá no livro, mas não digo que isso é cultura cariri, que isso é uma entidade cariri. Deixo bem claro que é uma entidade estrangeira de um outro povo que está ali, digamos, ‘perdido’. E aí tento fazer essa diferenciação entre esses símbolos, a cultura e os encantados dos tupis e dos cariris”, explanou.
Para além do evento cosmológico de 1054, Marcelo explicou que aquele ano foi o pico da migração tupi. “Eles saíram da Amazônia a pé e foram para a América do Sul inteira, atravessaram o sertão e se estabeleceram no litoral. O ano 1000 teve muitos conflitos também e bastante contato entre os povos sertanejos e aqueles da Amazônia, que estavam vindo, migrando. Quis, ainda, trazer esse aspecto. Basicamente, o livro é uma junção de vários elementos, dos sonhos, da história acadêmica, daquilo que se sabe que os indígenas faziam, comiam, com a parte da cosmovisão, religião e cultura em si. E agrego tudo isso numa narração para ficar um pouco mais fluida para o leitor”, disse.