João Pessoa, sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Instituto Veritá acumula pesquisas suspensas em 13 estados e no DF; Paraíba está na lista
14/08/2026 07:39
Redação ON Reprodução

O Instituto Veritá ganhou destaque nacional nesta semana pela quantidade de problemas que vem enfrentando na Justiça Eleitoral. Além de um caso registrado na Paraíba, onde a metodologia de uma pesquisa foi questionada por falta de informações consideradas essenciais para a fiscalização do levantamento, outros 12 estados e o Distrito Federal também aparecem na relação de locais em que pesquisas do instituto já tiveram a divulgação proibida neste ano. O histórico de contestações foi revelado em levantamento publicado pelo portal Metrópoles, mas, em maio, O Norte Online já havia levantado esse assunto.

Na Paraíba, a Justiça Eleitoral identificou problemas nas informações apresentadas pelo Veritá sobre a metodologia de coleta. Inicialmente, o registro não esclarecia de maneira suficiente se as entrevistas seriam presenciais, telefônicas, eletrônicas ou realizadas por um sistema híbrido.

Posteriormente, ao informar que a pesquisa seria feita por telefone, o instituto também não teria detalhado como os números seriam selecionados e sorteados, quais mecanismos seriam utilizados para impedir entrevistas duplicadas e de que maneira seria confirmado o domicílio eleitoral das pessoas que respondessem às ligações.

Outro questionamento envolveu a localização dos entrevistados. Conforme o levantamento do Metrópoles, processos na Paraíba, em Sergipe e Pernambuco apontaram que os questionários telefônicos do Veritá não incluíam perguntas sobre bairro, endereço ou setor censitário, dificultando a fiscalização da distribuição geográfica da amostra.

Problemas em série pelo país

O episódio paraibano está longe de ser isolado. O levantamento encontrou contestações contra pesquisas do Veritá em 18 estados ao longo deste ano. Em 13 estados e no Distrito Federal, pelo menos uma pesquisa do instituto teve sua divulgação proibida pela Justiça Eleitoral.

Somente na quarta-feira (12), os Tribunais Regionais Eleitorais do Rio Grande do Norte e de Sergipe barraram a divulgação de levantamentos para as disputas pelos governos estaduais e pelo Senado. Nos dois casos, a composição das amostras foi colocada sob suspeita por apresentar uma participação de eleitores mais escolarizados muito superior à realidade dos respectivos estados.

Em Sergipe, pessoas com ensino superior completo ou incompleto representavam 31,1% dos entrevistados. A PNAD Contínua de 2025, fonte declarada pelo próprio instituto, indicava 19,2%, enquanto os dados do TSE apontavam apenas 12,82% do eleitorado sergipano nesse nível de escolaridade.

No Rio Grande do Norte, 34% da amostra tinha ensino superior, contra 13,73% no cadastro do TSE. O levantamento também reservava 25% dos entrevistados à faixa de maior renda. Por reincidência, a decisão estabeleceu ainda multa superior a R$ 58 mil.

Questionamentos sobre a metodologia telefônica também apareceram em decisões no Piauí, Amazonas e Pernambuco, principalmente pela falta de detalhamento sobre a geração, seleção e abordagem dos números utilizados nas entrevistas.

Distribuição fora da realidade

No Espírito Santo, outro dado chamou a atenção da Justiça. O Veritá concentrou 42,13% das entrevistas em Vitória, apesar de a capital representar apenas 8,89% do eleitorado capixaba. Serra e Vila Velha, os dois maiores colégios eleitorais do estado, não tiveram uma única entrevista.

No Tocantins, além da falta de clareza sobre a fonte pública utilizada para construir a amostra, uma pesquisa apresentou uma inconsistência no próprio calendário: as entrevistas estavam programadas para ocorrer entre 29 de março e 4 de abril, mas a divulgação dos resultados estava prevista para 3 de abril, antes do término da coleta.

Suspeita de dados duplicados no Amazonas

Um dos casos mais graves ocorreu no Amazonas. Uma análise forense contratada pelo PSD identificou cerca de 380 pares consecutivos de linhas absolutamente idênticas nos 28 campos da planilha pública apresentada pelo Veritá.

Segundo o processo, o padrão atingia 62% das 1.220 entrevistas declaradas, com repetição das mesmas respostas para as 23 perguntas. A Justiça considerou estatisticamente incompatível esse volume de registros idênticos com a realização de entrevistas independentes e proibiu a divulgação da pesquisa.

A planilha também apresentava a coluna destinada aos números de telefone completamente vazia, embora o relatório do instituto afirmasse que 20% das entrevistas telefônicas haviam sido auditadas.

Perguntas também viraram alvo

No Distrito Federal, o problema chegou ao conteúdo do questionário. Uma pesquisa apresentava ao entrevistado uma sequência de perguntas sobre a Operação Dracon e a compra do Banco Master pelo BRB antes de questioná-lo sobre eventual envolvimento da governadora Celina Leão nas denúncias.

A Justiça entendeu que a sequência poderia induzir o eleitor a uma percepção negativa antes de responder sobre a governadora e determinou a suspensão da divulgação.

No Espírito Santo, o Veritá também incluiu os prefeitos Euclério Sampaio e Arnaldinho Borgo em cenários para governador quando o prazo para que eles deixassem seus cargos e pudessem disputar a eleição já havia passado. A Justiça considerou que a pesquisa apresentava ao eleitor um cenário de disputa fictício.

Instituto contesta

O Veritá contesta as críticas e sustenta a validade de sua metodologia. Ao Metrópoles, Adriano Silvoni, dono do instituto, afirmou que foram mais de 200 pesquisas registradas, com mais de 50 pedidos de impugnação, e que mais de 70% dessas contestações teriam sido revertidas.

Silvoni argumentou ainda que juízes e tribunais eleitorais têm adotado entendimentos diferentes sobre pesquisas e defendeu o histórico de resultados do Veritá nas eleições de 2018, 2022 e 2024.

Apesar da defesa do instituto, a sucessão de decisões transforma o caso registrado na Paraíba em apenas uma parte de um problema de dimensão nacional. Entre falhas na composição das amostras, questionamentos sobre entrevistas telefônicas, distribuição geográfica, formulação de perguntas e até suspeitas de duplicação de dados, o Veritá chega à eleição de 2026 como um dos institutos de pesquisa mais contestados na Justiça Eleitoral.

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