Instituto Veritá: entre decisões judiciais, polêmicas e o debate sobre pesquisas eleitorais
11/05/2026 09:08
Redação ON Reprodução

Em italiano, a palavra “verità” significa “verdade”. O termo remete à ideia de realidade, sinceridade e fidelidade aos fatos. No cenário político brasileiro, porém, o nome do Instituto Veritá passou nos últimos anos a frequentar decisões judiciais, questionamentos metodológicos e disputas eleitorais que colocaram suas pesquisas no centro de intensos debates públicos.

Neste fim de semana, as declarações do ex-prefeito de João Pessoa e candidato ao Governo da Paraíba, Cícero Lucena (MDB), reacenderam mais um desses episódios. Durante entrevista à Rádio Piranhas, em Cajazeiras, Cícero afirmou que haveria “manipulação” em determinados levantamentos eleitorais e citou nominalmente o Instituto Veritá, cuja atuação já foi alvo de decisões judiciais em diferentes estados brasileiros.

A fala ocorreu após a divulgação de pesquisas que colocam o emedebista fora de um eventual segundo turno na disputa pelo Governo da Paraíba.

Embora as acusações tenham partido diretamente do pré-candidato, o histórico do Instituto Veritá mostra que o nome da empresa já apareceu diversas vezes em ações judiciais, decisões liminares e debates sobre metodologia eleitoral ao longo dos últimos anos.

Na Paraíba, o caso mais recente envolve uma decisão do desembargador João Benedito da Silva, do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), que determinou a suspensão da divulgação de uma pesquisa do instituto para os cargos de governador e senador no processo nº 0600057-35.2026.6.15.0000.

A decisão atendeu a pedido apresentado pelo MDB e apontou o que o magistrado classificou como “graves deficiências técnicas” no levantamento.

Entre os pontos citados pela decisão judicial estão a ausência de informações claras sobre a forma de coleta das entrevistas — se presencial, telefônica ou pela internet —, inconsistências relacionadas à utilização de setores censitários do IBGE sem identificação territorial suficiente dos entrevistados e referências estatísticas consideradas desatualizadas.

Outro aspecto mencionado foi o uso de um chamado “fator de ajuste nulo”, mecanismo estatístico que, segundo o entendimento judicial, poderia comprometer a ponderação da amostra utilizada.

A discussão não se limita à Paraíba

Nos primeiros meses de 2026, decisões semelhantes envolvendo pesquisas do Instituto Veritá ocorreram em outros estados. Em Pernambuco, levantamentos chegaram a ser suspensos após questionamentos sobre inconsistências matemáticas e ausência de detalhamento do perfil educacional dos entrevistados. Em Alagoas, houve decisão proibindo divulgação de pesquisa e aplicação de multa por problemas relacionados a dados de renda e divergências entre o questionário registrado e o efetivamente aplicado.

No Tocantins, uma das ações questionou o fato de a data prevista para divulgação do levantamento anteceder o encerramento da coleta de dados. Já em estados como Paraná, Goiás e Piauí também foram registrados questionamentos judiciais envolvendo aspectos metodológicos.

As decisões não significam, necessariamente, reconhecimento de fraude ou manipulação deliberada, mas refletem o entendimento de magistrados sobre possíveis falhas técnicas, ausência de transparência metodológica ou descumprimento de exigências previstas pela legislação eleitoral.

Perfil do instituto 

Fundado em 1995, o Instituto Veritá tem sede em Uberlândia, Minas Gerais, e atua nacionalmente no segmento de pesquisas de opinião. O principal nome ligado à empresa é o empresário Adriano Silvoni, que frequentemente aparece em entrevistas e vídeos defendendo os métodos utilizados pelo instituto e criticando o que chama de “hegemonia” dos grandes institutos tradicionais.

Nos últimos ciclos eleitorais, o Veritá passou a ganhar maior visibilidade por divulgar pesquisas com resultados frequentemente diferentes daqueles apresentados por institutos mais conhecidos nacionalmente.

Em 2022, por exemplo, o instituto esteve entre os que apontavam desempenho mais forte do então presidente Jair Bolsonaro em relação às projeções de outros levantamentos nacionais. Os números repercutiram fortemente no ambiente político e foram amplamente utilizados por aliados do ex-presidente durante a campanha eleitoral.

Ao mesmo tempo, pesquisas estaduais registradas pelo instituto também acabaram sendo questionadas judicialmente em alguns estados por supostas inconsistências metodológicas.

Desde o tempo de Aécio Neves

Um episódio semelhante já havia ocorrido em 2014, quando dados do instituto em Minas Gerais foram utilizados pela campanha presidencial de Aécio Neves. Na ocasião, houve questionamentos sobre a divulgação parcial de informações relacionadas ao cenário eleitoral mineiro. O próprio Adriano Silvoni reconheceu posteriormente que os dados teriam sido utilizados politicamente de forma inadequada.

Nas eleições municipais de 2020, o instituto também enfrentou contestações em cidades de diferentes regiões do país, sobretudo relacionadas à estratificação do eleitorado e à descrição técnica das amostras utilizadas.

O Instituto Veritá costuma afirmar que utiliza ferramentas tecnológicas próprias para reduzir custos operacionais e ampliar a capacidade de realização de pesquisas em larga escala. Entre os mecanismos citados pelo instituto estão sistemas automatizados, geolocalização e métodos digitais de coleta.

Parte das discussões judiciais recentes, porém, gira justamente em torno do nível de detalhamento dessas metodologias e da possibilidade de auditoria independente dos levantamentos registrados na Justiça Eleitoral.

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