A entrevista concedida pelo deputado estadual Hervázio Bezerra à Rádio Arapuan marca um ponto de inflexão definitivo na relação dele com o governador João Azevêdo. Aliado histórico do governo e integrante do PSB, Hervázio admite que tentou, até onde foi possível, sustentar uma pacificação política entre o Palácio da Redenção e o grupo do prefeito Cícero Lucena. O esforço tinha um motivo claro: evitar que o filho, o vice-prefeito Léo Bezerra, assumisse a prefeitura da capital em abril em meio a um ambiente político hostil.
Esse cenário, no entanto, ruiu. O estopim institucional foi o veto do governador às emendas parlamentares. Hervázio deixou claro que não aceita a narrativa de que as emendas seriam instrumento de interesse pessoal dos deputados. Segundo ele, trata-se de recursos destinados a municípios, já anunciados publicamente, e cujo bloqueio atinge diretamente sua atuação política. Por isso, afirmou que votará pela derrubada do veto, mesmo tendo sido, até aqui, um deputado fiel à base governista.
A entrevista revela, porém, que o rompimento vai além do embate legislativo. O tom muda quando Hervázio relata ter sido alvo de ironia pública por parte do governador ao se referir à sua passagem pela Secretaria de Esporte, em 2019. Para o deputado, a fala atingiu não apenas sua biografia política, mas sua dignidade pessoal e o trabalho de toda uma equipe de servidores, atletas e paratletas. Em diversos momentos, ele repete que aceita qualquer crítica, menos ser tratado como incompetente.
A mágoa se aprofunda quando Hervázio compara o tratamento que recebeu ao dispensado a outros aliados. Ele afirma que, em situação semelhante, houve pedido de desculpas a outro parlamentar, gesto que não foi repetido no seu caso. A ausência de qualquer contato, ligação ou mensagem de reparação foi interpretada como descaso e desrespeito.
Ao longo da entrevista, Hervázio faz uma defesa detalhada da gestão que comandou na área do esporte, apresentando números de orçamento e relatando as dificuldades para manter políticas públicas com recursos escassos. O discurso ganha contornos pessoais quando ele afirma que a crítica pública do governador atingiu sua honra e a de profissionais que atuaram ao seu lado.
O rompimento se consolida quando o deputado declara que não votará em João Azevêdo para o Senado. Segundo ele, a decisão não é fruto de cálculo eleitoral, mas de uma quebra de confiança. Hervázio ressalta que não fala em nome do filho, que tem autonomia política, mas assume que, pessoalmente, a relação com o governador chegou ao limite.
Ao final, o deputado sinaliza que seu posicionamento na Assembleia dependerá dos próximos movimentos do governo. Afirma que poderá atuar de forma independente ou na oposição, mas garante que não fará oposição automática e que continuará apoiando projetos que considere positivos para a Paraíba. Ainda assim, deixa claro que a tentativa de pacificação ficou para trás e que a crise aberta dificilmente terá retorno.