A manhã deste sábado foi de celebração à memória, à literatura e ao jornalismo paraibano. A Livraria do Luiz, no Mag Shopping, em João Pessoa, recebeu um público formado por jornalistas, escritores, pesquisadores, professores e admiradores da cultura local para o lançamento da mais nova obra de Gonzaga Rodrigues, um dos maiores cronistas da história da Paraíba – hoje colunista de O Norte Online todas as quartas feiras.
Visivelmente emocionado durante todo o evento, Gonzaga apresentou o livro dedicado à trajetória de José Maria dos Santos, intelectual paraibano que alcançou reconhecimento nacional como jornalista, historiador e ensaísta, mas que permaneceu por décadas praticamente desconhecido em sua própria terra.
O evento teve clima de reencontro entre gerações de intelectuais e foi marcado por depoimentos, lembranças e reflexões sobre a importância de preservar a memória dos grandes nomes da cultura paraibana. A apresentação da obra ficou a cargo do pesquisador Flávio Ramalho de Brito, que destacou a relevância histórica de José Maria dos Santos e o papel de Gonzaga Rodrigues na recuperação de personagens fundamentais da formação intelectual brasileira.
Nascido em João Pessoa em 1877, filho de um negro liberto que combateu na Guerra do Paraguai, José Maria dos Santos construiu carreira de destaque em São Paulo, tornando-se referência em estudos sobre a história política brasileira. Apesar da projeção nacional, sua obra acabou sendo pouco difundida na Paraíba.
Ao longo da cerimônia, Gonzaga voltou a defender a necessidade de reparar esse esquecimento histórico. O livro surge justamente como um esforço para recolocar José Maria dos Santos no lugar de destaque que lhe cabe entre os grandes pensadores paraibanos.
Mais do que um lançamento literário, o evento transformou-se em uma homenagem à memória intelectual do Estado e também à trajetória do próprio Gonzaga Rodrigues, que segue produzindo e contribuindo para a cultura paraibana após décadas dedicadas ao jornalismo e à literatura.

A íntegra da fala de Gonzaga Rodrigues
“Determinei-me em reeditar este pequeno livro por entender que uma vida tão valiosa e exemplar como a de José Maria dos Santos merece estender a sua obra, ser estudado, além do seu tempo e para júbilo de sua terra.
Êxito nem sempre bem visto pelo olhar preconceituoso, como bem acentuou o deputado Raul Pila ao fazer-lhe o necrológio na Câmara, em 1954, do qual destaco estas palavras:
‘Homem de raça negra, pertenceu a uma elite de expoentes do ensaísmo brasileiro, explicando-se o desconhecimento de sua obra pela modéstia desconfiada com que José Maria se colocava diante dos homens e das coisas de seu país.’
Mas a negritude e o indisfarçável preconceito não constituem a razão maior de minha insistência. Tenho a convicção, com a leitura de dois dos seus melhores estudos, de que o conhecimento de sua obra, mesmo tratando de um tema versadíssimo, como a tendência de nossa República a ser frequentemente golpeada, não perdeu o valimento.
Além do mais, o escritor de expressão límpida, às vezes opulenta como a de um João Ribeiro ou de um Oliveira Viana, que dá gosto ler. Seu comportamento diante dos homens e das coisas, no testemunho de Raul Pila, Guilherme de Almeida, Hermes Lima, Cândido Mota Filho e João de Scantimburgo, em convivência com ele na imprensa, só fazem confirmar a grandeza de sua modéstia desconfiada tão rica de significações realçada por Raul Pila.
’Por mais que se tenha lido na antologia da escola ou em acervos mais adensados, revivem-se em José Maria novos episódios e circunstâncias de quem, não só estudou, pesquisou como de quem testemunhou o fato ou a sua mais imediata ou primeira repercussão.
Não escreveu sobre a Paraíba, é certo, não sedimentou aqui sua visão de mundo, mas, em grande estilo, escreveu sobre o seu país que, afinal de contas, é também nosso.
Creio que o opúsculo editado pela A União, na passagem do século, cumpriu o seu papel, lastreou a iniciativa, creio de um Deusdedit Leitão ou Joacil de Brito a fazê-lo encabeçar a lista de patronos do nosso IHGP; some-se a isto a adesão a José Maria de um pesquisador exaustivo, Flávio Ramalho de Brito, de uma geração nova da nossa Universidade, com seu estímulo e a sua ajuda prestigiosa como restaurador de nomes como Castro Pinto e José Gaudêncio, ambos golpeados pelo modelo de República que os Estados Unidos adotaram, em função de sua origem e em conformidade com um povo que tem nos seus caubóis a melhor imagem.”