João Pessoa, quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Flávio vai aos EUA, mas deixa no PL a conta do fracasso no Nordeste
28/10/2026 06:34
Redação ON Reprodução

A saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos abriu uma nova crise no bolsonarismo, mas deixou pendente uma discussão que incomoda o PL: o desempenho da candidatura no Nordeste e a distância entre as promessas dos aliados e o resultado das urnas. A viagem, confirmada à Reuters por fontes próximas ao senador e do governo americano, deslocou as atenções. A conta eleitoral, porém, continua aberta.

Nos bastidores do partido, a cobrança envolve a capacidade das lideranças regionais de transformar força política própria em votos para a candidatura presidencial. Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas estão nesse balanço, por diferentes razões: o otimismo dos aliados, a responsabilidade da coordenação da campanha e a presença de um candidato a vice nordestino.

Flávio saiu do primeiro turno com aproximadamente 10,4 milhões de votos no Nordeste, equivalentes a 30,85% dos válidos. No segundo, chegou a 10,8 milhões, mas sua participação caiu para 30,63%. Houve crescimento em números absolutos e recuo proporcional — justamente quando a campanha precisava ampliar seu espaço na região. Lula terminou com 69,37% e cerca de 24,45 milhões de votos.

A expectativa no entorno de Flávio era alcançar pelo menos 33%. Considerando os aproximadamente 35,2 milhões de votos válidos registrados na região, isso representaria cerca de 11,6 milhões de votos. O resultado ficou aproximadamente 800 mil abaixo dessa projeção.

Na Paraíba, o contraste entre discurso e urna dá dimensão à cobrança. O senador Efraim Filho e o deputado federal Cabo Gilberto estiveram entre as lideranças que alimentaram o otimismo em torno da candidatura. Gilberto, o deputado federal mais votado do estado, estabeleceu publicamente a meta de um milhão de votos para Flávio.

A meta não foi atingida. Flávio recebeu aproximadamente 865 mil votos na Paraíba, cerca de 135 mil abaixo do objetivo anunciado. Depois da eleição, Cabo Gilberto reconheceu que o grupo não conseguiu alcançar o patamar prometido e afirmou respeitar a vontade do eleitor paraibano. O resultado expõe o limite da transferência de votos: uma votação expressiva para deputado não se converte automaticamente em apoio ao candidato presidencial.

No Rio Grande do Norte, a cobrança alcança Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio. A mobilização no estado ficou sob sua responsabilidade, enquanto Alfredo Gaspar, candidato a vice, percorreu os demais estados nordestinos. Das 24 agendas cumpridas por Gaspar entre 9 e 24 de outubro, 22 ocorreram no Nordeste.

Em Alagoas, a presença de Gaspar na chapa também não produziu o avanço esperado. Flávio passou de 735.718 para 744.140 votos, acréscimo de apenas 8.422. Lula ganhou 157.162 votos entre os turnos. A candidatura do PL venceu em nove municípios alagoanos, sete a menos que na primeira etapa.

Os números não permitem atribuir a derrota, isoladamente, à falta de empenho de um ou outro aliado. Mas sustentam a discussão que permanece no PL: por que a mobilização anunciada, as lideranças eleitas e a escolha de um vice nordestino não entregaram o crescimento prometido? A saída de Flávio do país mudou o foco da crise. Não encerrou essa cobrança.

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