João Pessoa, sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Faixa coral concedida por Renzo Gracie provoca revolta e divide jiu-jítsu da Paraíba
03/09/2026 10:12
Redação ON Reprodução

A passagem de Renzo Gracie por João Pessoa, que começou em clima de homenagem na Assembleia Legislativa da Paraíba, terminou provocando uma forte controvérsia nos bastidores do jiu-jítsu paraibano. A concessão da faixa coral — vermelha e preta — ao professor João Ramalho abriu uma discussão pública entre nomes históricos da modalidade no Estado.

Renzo esteve na capital paraibana nesta terça-feira (1º) para receber a Comenda Mestre Robson Gracie, concedida pela Assembleia Legislativa. A homenagem, proposta pelo deputado Michel Henrique, também contemplou Ralph Gracie, representado pelo irmão durante a solenidade porém outro episódio acabou ganhando repercussão ainda maior dentro da comunidade do jiu-jítsu. Renzo Gracie graduou João Ramalho com a faixa vermelha e preta, conhecida como faixa coral, uma das graduações mais elevadas da modalidade.

O reconhecimento imediatamente provocou questionamentos de professores paraibanos. A discussão não gira em torno da trajetória de João Ramalho no Vale Tudo e nas artes marciais, reconhecida inclusive por alguns dos críticos da graduação, mas sobre o cumprimento dos critérios de tempo e hierarquia tradicionalmente adotados para chegar à faixa coral.

A própria Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro (IBJJF) mantém um sistema de graduação destinado a padronizar a progressão dos atletas e professores, inclusive nas graduações superiores da faixa preta.

Um dos nomes que reagiram foi Mário Sucata, personagem histórico da modalidade na Paraíba. Aluno do mestre Luiz Barbosa, carioca apontado como um dos responsáveis pela implantação e desenvolvimento do jiu-jítsu no Estado a partir da década de 1990, Sucata tornou-se o primeiro faixa-preta paraibano daquela linhagem.

Em uma sequência de publicações nas redes sociais, Sucata não citou diretamente João Ramalho, mas deixou mensagens interpretadas no meio esportivo como uma contestação à forma como determinadas graduações são concedidas.

“Legado não é uma delas”, escreveu ao falar de coisas que poderiam ser simplesmente colocadas na cintura. Em outra postagem, acrescentou: “Porque não é a faixa que faz a história. É a história que dá valor à faixa”. E concluiu a sequência afirmando que “graduação se recebe, respeito se conquista, legado se constrói”.

A manifestação mais direta partiu do professor Ítalo Ramon, faixa-preta quarto grau, que gravou um vídeo questionando abertamente a graduação entregue por Renzo Gracie.

Ítalo fez questão de reconhecer a trajetória de João Ramalho no Vale Tudo e no MMA paraibano e afirmou manter respeito pessoal pelo professor. A divergência, segundo ele, está especificamente na progressão dentro do jiu-jítsu.

“Eu acredito que essa matemática aí foi feita errada”, afirmou.

O professor sustentou que João Ramalho foi aluno de Mário Sucata e questionou como o discípulo poderia alcançar a faixa vermelha e preta antes do próprio mestre. Segundo Ítalo Ramon, Sucata ainda precisaria cumprir aproximadamente dois anos para atingir essa graduação.

“Como pode o aluno ultrapassar o professor?”, questionou. Ítalo ressaltou, entretanto, que sua manifestação não representa qualquer desavença pessoal com João Ramalho: “Ele é meu amigo, sempre me tratou muito bem, eu sempre o respeitei e o respeito continua o mesmo”.

A controvérsia expôs uma divisão que dificilmente seria imaginada quando Renzo Gracie desembarcou na Paraíba para uma solenidade destinada justamente a celebrar a história e o legado do jiu-jítsu.

O que seria apenas uma passagem festiva de um dos integrantes mais conhecidos da família Gracie transformou-se, assim, numa discussão sobre algo especialmente sensível dentro das artes marciais: quem pode graduar, quando uma graduação deve acontecer e até que ponto o prestígio de quem entrega uma faixa pode se sobrepor aos critérios de tempo, linhagem e hierarquia cultivados durante décadas.

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