segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Estadão testa as “melhores” milharinas do país e comete erro grave ao ignorar a São Braz
23/02/2026 11:16
Redação ON Reprodução

O suplemento Paladar, do jornal O Estado de S. Paulo, publicou neste domingo (23) um ranking com as oito melhores marcas de flocão de milho do Brasil. O teste foi conduzido por um time respeitado de chefs e especialistas, em avaliação às cegas, com critérios técnicos de textura, aroma, sabor e aparência do cuscuz depois de cozido no vapor.

O problema não está no método, nem nos jurados. Está na lista. O caderno Paladar simplesmente ignorou a São Braz, uma das maiores e mais tradicionais fabricantes de derivados de milho do país, líder de mercado no Nordeste e presença dominante nas prateleiras de Norte a Sul. Trata-se de uma ausência difícil de justificar em qualquer levantamento que se proponha nacional.

Ao deixar de fora uma gigante do setor, o ranking perde representatividade e cria uma fotografia distorcida do mercado brasileiro de flocão, que tem no Nordeste seu principal polo produtivo, cultural e de consumo.

Como ficou o ranking

No levantamento divulgado pelo Estadão, o flocão da Maratá ficou com o primeiro lugar, elogiado pela textura, cor e sabor amanteigado após o preparo do cuscuz. Em seguida vieram Coringa, em segundo, e Da Terrinha, em terceiro. Também figuraram na lista marcas como Dona Clara, Ecobio, Livre D, Nutrivita e Yoki, algumas elogiadas, outras bastante criticadas pelo júri por textura irregular, falta de aroma e problemas de hidratação.

Ou seja: houve espaço para produtos bem avaliados e também para marcas que não agradaram. Mas não houve espaço para uma das maiores empresas de alimentos do Nordeste, com presença consolidada no segmento de flocão há décadas. É um recorte que empobrece o resultado final e revela um viés geográfico evidente: o Brasil do cuscuz não cabe apenas nas gôndolas de São Paulo.

O mercado do flocão no Nordeste e o peso da São Braz

Quando se fala em flocão de milho, o coração do mercado pulsa no Nordeste. É aqui que estão os grandes grupos industriais do setor, que abastecem milhões de mesas todos os dias e movimentam uma cadeia robusta de produção, logística e distribuição.

A São Braz, com sedes na Paraíba e na Bahia, disputa espaço de igual para igual com gigantes como Maratá e Coringa. Não é apenas uma marca tradicional: é um complexo industrial de alimentos que vai muito além do flocão, com atuação em cafés, snacks, temperos e outros derivados de milho. No segmento do cuscuz, a São Braz é presença obrigatória no consumo popular e também em mercados fora da região, o que torna ainda mais inexplicável sua exclusão de um teste que se diz nacional.

Ignorar a São Braz é ignorar uma fatia enorme do mercado real, do consumo cotidiano e da história do flocão no Brasil. É quase como tentar eleger o melhor pão italiano sem provar o que se come nas padarias da própria Itália.

Uma gigante em plena expansão

A ausência da São Braz no ranking do Estadão fica ainda mais gritante quando se observa o momento vivido pela empresa. Há menos de um ano, o grupo inaugurou uma fábrica de grande porte na Bahia, ampliando de forma expressiva sua capacidade produtiva e sua presença logística no Nordeste e em outros mercados. Trata-se de um dos maiores investimentos industriais recentes no setor de alimentos à base de milho no país.

Nova fábrica da São Braz em Salvador, inaugurada em 2025

Essa expansão coloca a São Braz em outro patamar competitivo, disputando mercado nacionalmente com grupos que tradicionalmente dominam o Sudeste e o eixo Sul-Sudeste. Em outras palavras: não se trata de uma marca regional pequena, mas de um player estratégico que está, literalmente, redesenhando o mapa da indústria do milho no Brasil.

Quando um ranking ignora esse movimento e esse peso econômico, o problema deixa de ser apenas uma falha editorial pontual. Passa a ser um sintoma de como o olhar do Sudeste, muitas vezes, ainda trata o Nordeste como um apêndice do mercado nacional – quando, na prática, é o motor principal de segmentos como o do flocão de milho.

Deixar a São Braz de fora não é apenas um descuido técnico. É um apagamento simbólico de uma gigante que ajuda a sustentar, todos os dias, o prato mais democrático da culinária nordestina. E, nesse ponto, o ranking do Estadão erra feio – não contra uma marca apenas, mas contra a própria ideia de um Brasil que se pretende inteiro.

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