Esgoto na praia em pleno verão expõe falha grave e ameaça o principal ativo turístico de João Pessoa
05/01/2026 11:22
Redação ON Reprodução

A reportagem de O Norte Online esteve neste fim de semana na praia de Tambaú para registrar o primeiro domingo de 2026 em pleno verão. Praia lotada, mar verde, turistas por todos os lados, catamarãs saindo cheios e a sensação clara de que João Pessoa vive um dos momentos mais intensos de sua história recente no turismo. Fizemos matéria, vídeo e mostramos um cenário típico de alta temporada. E foi exatamente nesse instante, simbólico e crucial, que veio à tona uma polêmica grave: o despejo de esgoto no mar.

O problema não é novo, mas se torna muito mais sério quando aparece no auge do verão, com a cidade cheia de visitantes. A chamada “língua negra”, líquido escuro e com forte mau cheiro visto na água, provocou um bate-boca público entre a Cagepa e a Prefeitura de João Pessoa. A companhia estadual sustenta que seu sistema de esgotamento sanitário opera normalmente e aponta como causas possíveis as ligações clandestinas e a falta de limpeza e manutenção das galerias pluviais, que seriam de responsabilidade municipal. Já a Secretaria de Meio Ambiente afirma que o material despejado é esgoto e relaciona o fenômeno a extravasamentos do sistema, falhas operacionais, entupimentos, estações elevatórias e uso irregular da drenagem urbana.

Diante da recorrência do problema, o Ministério Público decidiu agir. A promotora de Justiça do Meio Ambiente, Cláudia Cabral, suspendeu o recesso e determinou inspeção imediata nas praias da capital, convocando Cagepa, Sudema, Prefeitura e peritos. O tom foi duro, com menção a crime ambiental, responsabilização de empresários e até a possibilidade de cassação de alvarás de funcionamento de estabelecimentos que contribuam para a contaminação.

Tecnicamente, o cenário é conhecido e não deveria mais surpreender. Galerias pluviais são projetadas exclusivamente para água da chuva, não para receber esgoto doméstico, gordura de restaurantes, água de piscina ou resíduos de lavanderia. Quando isso acontece, o sistema entra em colapso, transborda e despeja exatamente onde o impacto é maior: na orla, cartão-postal da cidade. Há falhas acumuladas ao longo dos anos, fiscalização insuficiente e um histórico de irregularidades que nunca foi totalmente sanado.

Mas o ponto central precisa ser dito com clareza. Este não é o momento de transformar o problema em um jogo de empurra institucional. Tampouco é hora de buscar culpados apenas para alimentar discursos políticos ou corporativos. O que está em risco é a imagem de João Pessoa e da Paraíba num momento em que o turismo se consolidou como um dos pilares da economia local.

Praia cheia, voos lotados, hotéis ocupados e, ao mesmo tempo, vídeos e relatos de esgoto no mar circulando nas redes sociais representam uma queimação de filme devastadora. O turista não quer saber se a falha é da Cagepa ou da Prefeitura. Ele quer água limpa, segurança sanitária e confiança para voltar.

Resolver o problema com rapidez, coordenação e transparência vale mais do que qualquer nota técnica, coletiva de imprensa ou disputa de versões. Em pleno verão, proteger a praia é proteger o futuro do turismo e da própria cidade.

canal whatsapp banner

Compartilhe: