Em João Pessoa, um venezuelano no estacionamento e o medo que atravessa fronteiras
03/01/2026 11:54
Por Marcondes Brito Reprodução

A conversa durou poucos minutos, no estacionamento de um supermercado, em João Pessoa, enquanto ele guardava as compras no porta-malas do carro. Bastou uma pergunta simples para abrir uma fresta de humanidade em meio ao noticiário duro que toma conta dos últimos dias.

“E a Venezuela, como está hoje?”

O trabalhador venezuelano se interessou imediatamente. Não parecia alguém que acompanha notícias em tempo real. Pelo contrário. Demonstrava uma necessidade quase urgente de saber o que estava acontecendo no seu país. Disse que tinha ouvido falar da prisão de Nicolás Maduro, mas queria saber de outra coisa. As explosões. Os danos. Se havia vítimas. Se a cidade tinha sido atingida.

Falava menos de política e muito mais de pessoas. Dos irmãos que ficaram em Caracas. Da população. Do que poderia ter acontecido com quem estava lá quando os ataques começaram. A preocupação não era com o destino de um presidente, mas com o impacto real sobre quem vive na cidade.

Quando a conversa avançou, me apresentei como jornalista do portal O Norte Online e sugeri uma entrevista em off, sem nome, sem imagem, apenas para registrar a percepção de alguém que vive longe, mas segue emocionalmente preso ao que acontece do outro lado da fronteira.

A reação foi imediata. O semblante mudou. O corpo recuou.

“No, por favor, no puedo hablar”.

Perguntei se ele estava regular no Brasil. Ele respondeu que sim, que tinha um visto de cinco anos. Disse isso sem muita convicção, já se afastando, olhando para trás enquanto caminhava, como se até aquela resposta pudesse ser excessiva. Reafirmou que não podia falar, recusou qualquer gravação e, em poucos segundos, encerrou a conversa, deixando o local apressadamente.

O medo, ali, era mais eloquente do que qualquer declaração.

O Brasil como refúgio 

A cena ajuda a entender um sentimento comum entre muitos venezuelanos que migraram para o Brasil. O país abriga hoje uma das maiores comunidades venezuelanas fora da Venezuela. Desde o início da crise migratória, mais de um milhão de venezuelanos já cruzaram a fronteira brasileira. Estima-se que mais de 700 mil permaneçam atualmente no país, entre migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio, tornando os venezuelanos o maior grupo estrangeiro em território brasileiro.

São trabalhadores, famílias, jovens e idosos que tentam reconstruir a vida longe de casa, muitos deles em situação regular, outros em processos ainda pendentes. Em comum, quase todos carregam vínculos familiares e emocionais profundos com o país de origem.

A maioria deixou a Venezuela por oposição ao regime, por dificuldades econômicas ou por falta de perspectivas. Ainda assim, falar sobre política, mesmo fora do país, continua sendo algo sensível. O receio permanece. O silêncio, também.

A escalada recente de tensão reacende um temor que nunca desapareceu completamente: o de novos deslocamentos forçados. Há expectativa de que o fluxo migratório aumente caso os ataques se intensifiquem e atinjam áreas civis, ampliando uma diáspora que já é uma das maiores do mundo contemporâneo.

A conversa no estacionamento foi breve, mas simbólica. Ela mostra que, para quem vive a migração, a pergunta mais importante não é quem caiu ou quem venceu no tabuleiro geopolítico. É se a cidade resistiu. Se os parentes estão vivos. Se haverá para onde voltar um dia.

Entre explosões, prisões e discursos oficiais, o medo de falar — mesmo longe — talvez seja uma das evidências mais claras da profundidade da ferida aberta na Venezuela.

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