terça-feira, 4 de agosto de 2026
Entre processos e sonhos: o que os advogados paraibanos queriam ser — e não foram
17/09/2025 05:24
Por Marcondes Brito Reprodução

Nem só de petições e tribunais se faz a vida de um advogado. Por trás das bancas prestigiadas e das trajetórias de sucesso, há sempre um desejo guardado, uma curva do destino que levou a outro caminho. Alguns deixaram para trás a música, outros o teatro, outros até a pretensão de vestir a toga. São confidências que não diminuem suas carreiras, mas acrescentam humanidade às histórias de quem já venceu muito — e ainda sonha mais.

Nossa primeira experiência com esse formato de reportagem foi com os jornalistas. A matéria, publicada no dia 4 de setembro, foi um estrondo: está entre as dez mais lidas do mês até agora em O Norte Online. O resultado abriu margem para ampliar o leque e ouvir outras categorias. Hoje, damos voz aos advogados. Na próxima semana, outros segmentos profissionais também terão espaço para revelar o que ficou pelo caminho.

E, para começar com leveza, nada melhor do que a sinceridade bem-humorada de Marcos Pires, que jura que sua maior frustração não é de ordem jurídica, mas financeira: ele confessa que adorava ser “filho de rico”.

Marcos Pires — a alegria de ser “ex-filho de rico”

Filho de Adrião e Creuza Pires, de uma das famílias mais tradicionais da Paraíba, Marcos Pires conta que o Direito entrou em sua vida quase por obrigação, quando a maré financeira da família virou. Tornou-se um advogado reconhecido, abriu caminho para o filho Pedro também seguir a profissão e coleciona vitórias. Mas a frase que ficou foi outra: “Nada se compara a ser filho de rico”. Ele brinca que ainda pode recuperar o posto — talvez como marido de uma mulher rica ou avô de um neto rico. Marcos é admirado nas redes sociais pelas suas postagens bem humoradas. Aliás, um bom humor que o acompanha desde a infância aos dias de hoje (na foto acima, Marcos Pires, ontem e hoje).

Walter Agra — o juiz que virou advogado

Enquanto a maioria das crianças sonhava em ser jogador de futebol ou artista, Walter Agra queria ser juiz. O tempo mostrou que sua vocação estava na advocacia, onde construiu uma carreira sólida. Foi, durante quatro anos, conselheiro Nacional do Ministério Público, em Brasília; e mais quatro como Procurador Chefe do Cade. Hoje, além da sua atuação no escritório Solon Benevides & Walter Agra Advogados Associados, divide o futuro em dois projetos bem distintos: retomar a criação de gado Nelore e manter um curral de peixes em Formosa. Se não virou juiz, ao menos segue julgando qual desses sonhos leva adiante primeiro.

Nevita Franca Luna — entre o doutorado e a mesa cheia

Com um doutorado no Canadá e uma carreira de prestígio, Nevita poderia dizer que realizou todos os seus sonhos. Mas há um que ficou pelo caminho: ter mais filhos. Vinda de uma família numerosa, ela gostaria de ter tido a mesa cheia e barulhenta todos os dias. A vida seguiu outro rumo, e ela aprendeu a olhar esse “não feito” como um ensinamento. “O equilíbrio é essencial: mulheres devem se realizar no trabalho, mas também perseguir seus desejos mais íntimos”, reflete.

Ricardo Bezerra — a peça que não subiu ao palco

No mundo jurídico, Ricardo Bezerra, membro da Academia Brasileira de Direito e APLJ-PB, conquistou reconhecimento nacional. Mas sua veia artística sempre pulsou. Escreveu peças, rascunhou textos, sonhou com palcos. O detalhe é que nunca subiu neles. “Minha frustração talvez tenha sido essa: não ter enfrentado o medo de encenar”, confessa. Entre o Direito e a literatura, ficou a lacuna de ator — ainda que, de certa forma, a vida de advogado também seja um palco.

Vandilo Brito — da orquestra ao tribunal

Antes de vestir a beca, Vandilo Brito vestia a música. Estudou violão clássico, integrou orquestras e dividiu partituras com colegas que hoje tocam mundo afora. A advocacia acabou falando mais alto, mas a música nunca saiu dele. “Toco por hobby violão, flauta, violino, cavaquinho…”, enumera. E ainda acrescenta a poesia como nova forma de expressão. Se a vida não o fez músico profissional, ao menos o fez artista permanente.

Larissa Bonates Souto — a promotoria que virou advocacia

No início da faculdade, Larissa imaginava-se promotora, especialmente na área da infância e juventude. Mas as dificuldades da época pediam pressa, e a advocacia mostrou-se o caminho mais viável. Treze anos depois, ela não vê motivo para arrependimentos. “Não posso dizer que tenho frustrações. A advocacia me deu mais do que merecia. Hoje não me vejo fazendo outra coisa”, resume.

As gavetas que ainda guardam desejos

Entre sonhos guardados e realizações inesperadas, os advogados mostraram que a vida profissional pode ser brilhante sem apagar as vontades que ficaram pelo caminho. Uns trocaram a toga pelo bom humor, outros a música pelo tribunal, outros ainda carregam lembranças de escolhas adiadas. O certo é que todos seguem vitoriosos, cada um à sua maneira.

Na próxima semana, vamos abrir outra gaveta de sonhos não realizados. Porque, no fundo, todo mundo tem aquele “se” que a vida não deixou acontecer — e é justamente aí que mora a parte mais humana das histórias de sucesso.

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