Todo mundo guarda um sonho na gaveta, uma vontade que o tempo ou as circunstâncias não deixaram realizar. A partir desta semana, O Norte Online estreia uma série leve e curiosa, ouvindo profissionais consagrados da Paraíba para revelar uma faceta pouco conhecida: suas pequenas frustrações pessoais. Nada que diminui trajetórias brilhantes, mas relatos que mostram o lado humano por trás das carreiras de sucesso.
Começamos com depoimentos de jornalistas, mas logo vamos ampliar para outros segmentos, porque o tema é universal. Há histórias para contar envolvendo celebridades no Brasil e no mundo. Vinicius de Moraes, por exemplo, antes de se tornar o “poetinha” — um dos maiores compositores da música brasileira — foi diplomata. Uma lembrança que mostra como, muitas vezes, o destino não segue a primeira vontade.
Luiz Torres – O poeta que não publicou

Um dos nomes mais importantes do Sistema Arapuan, Luiz Torres revelou sua frustração por nunca ter lançado um livro de poesia ou emplacado uma canção.
“De uma maneira despretensiosa, sempre me arrisquei numa e noutra coisa. Minha frustração vai no sentido de nunca ter publicado livro algum de poesia e não ter nenhuma música comercial gravada por um intérprete. Meus ídolos? Quanto ao poeta, Augusto dos Anjos. Compositores são muitos: Chico César, Chico Buarque, Cazuza, Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Humberto Gessinger… lista enorme.”
Abelardo Jurema – O cantor que ficou no jornal

Autor da coluna que todo mundo lê – como ele mesmo se define – Abelardinho é uma espécie de “decano do colunismo social paraibano”. E, para quem não sabe, quase trilhou outro caminho.
“Pois é, todo mundo tem sua frustração, né? Porque antes de eu ser jornalista e o jornalista que eu sou hoje, já há 50 anos, eu fiz de tudo para ser cantor. Cheguei a participar do programa Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, que revelava novos talentos. Mas não fui bem sucedido, apesar de não ter ido mal. Depois abandonei tudo e decidi seguir no jornalismo. Hoje vejo que foi a melhor escolha.”
Tatiana Ramos – O mestrado que ainda cabe no futuro

A jovem jornalista que carrega a imensa responsabilidade de ser a Gerente de Conteúdo da TV Cabo Branco, afiliada Globo, admite que queria ter estudado fora do país.
“Eu gostaria de ter feito um mestrado ou uma pós fora. Comecei a trabalhar muito cedo, depois casei, tive filho. Perdi o timing. Acabei fazendo algumas especializações no Brasil mesmo. Mas o bom é saber que ainda posso colocar nos meus planos.”
Naná Garcez – Um Bonjour que ficou no caminho

A diretora presidente da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC) acrescenta um toque francês à nossa série de “frustrações confessadas”. Ela lembra com carinho do tempo em que começou a estudar francês em Aracaju, ainda antes de se mudar para a Paraíba. Por aqui, acabou dando continuidade apenas ao inglês, mas nunca esqueceu o idioma que a fascinava.
“Estudei francês por vários anos e lamento não ter concluído. É uma língua que sempre me encantou e que ainda está nos meus planos”, conta.
Além disso, há o desejo de conhecer Paris. Mais do que uma frustração, Naná Garcez trata esse capítulo inacabado como uma promessa a si mesma: um dia ainda vai caminhar em volta da Torre Eiffel e resgatar o “bonjour” que ficou pelo caminho.
Petrônio Souto – Do piano à datilografia

Respeitado jornalista e historiador, Petrônio Souto sonhava ser pianista. O destino, porém, o conduziu a outro teclado.
“Na minha casa éramos dez filhos. Só havia espaço para uma pianista, e eu acabei empurrado para outro teclado. Desde criança me tornei um exímio datilógrafo, e tudo que conquistei na vida devo a isso. Hoje percebo que a paixão pelo piano me transformou em um grande datilógrafo. As mãos sobre o teclado da máquina de escrever devem ter a mesma precisão das mãos sobre o teclado do piano.”
Com um toque de humildade e ironia, concluiu: “Seria a máquina de escrever o piano que me foi negado?”
Sony Lacerda – O filho que ficou na vontade

Ex-editora-chefe do extinto jornal Correio da Paraíba, e hoje autora de um blog político que é sinônimo de boa informação, Sony falou mais em arrependimento do que em frustração.
“Gostaria muito de ter equilibrado melhor minha vida pessoal com a profissional e, diante disso, ter tido um filho. Completei 30 anos de jornalismo este ano, me dediquei bastante, mas sempre achei que nasci para ser mãe. Hoje tenho 52 anos, ainda jovem, mas essa oportunidade já passou. É algo que gostaria de ter feito, mas ficou na vontade.”
Quando o talento é destino
Até Pelé, gênio absoluto do futebol, já se arriscou como cantor e ator — e todos sabemos que não foi exatamente um sucesso. Daí surgiu a velha piada: “Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola.” Um jeito lúdico de dizer que, no fim das contas, certas vocações simplesmente não dão chance ao improviso.