terça-feira, 3 de março de 2026
Entre cargos, recuos e escolhas: o movimento de Jhony Bezerra que redesenha a cena política na Paraíba
03/03/2026 13:31
Redação ON Reprodução

O anúncio feito nesta terça-feira pelo médico Jhony Bezerra, declarando apoio à pré-candidatura do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, ao Governo da Paraíba, encerra – ao menos formalmente – um período de semanas marcado por tensão política, negociações silenciosas e sinais contraditórios.

Segundo colocado na disputa pela Prefeitura de Campina Grande em 2024, com quase 100 mil votos, Jhony surge hoje como uma das principais lideranças emergentes do interior do estado. Ao justificar a decisão nas redes sociais, afirmou ter optado “pela experiência administrativa comprovada, pela credibilidade e pela capacidade de unir”.

Cícero Lucena respondeu rapidamente, agradecendo o apoio e destacando que o médico passa a integrar o projeto político que pretende apresentar ao eleitorado paraibano em 2026, com ênfase na ampliação e interiorização da rede pública de saúde.

Mas o gesto político anunciado publicamente carrega uma história bem mais complexa nos bastidores.

Até recentemente, Jhony Bezerra era considerado um dos quadros mais prestigiados do grupo do governador João Azevêdo. Sua ascensão política ocorreu integralmente dentro da estrutura governista: foi diretor hospitalar em Campina Grande, secretário executivo de Saúde, secretário estadual titular, presidente da PB Saúde e, posteriormente, candidato do PSB à Prefeitura de Campina, numa candidatura construída diretamente pelo Palácio da Redenção.

O primeiro ruído teria surgido no início do ano, após mudanças promovidas na direção da PB Saúde. A chegada de um novo gestor resultou na substituição de nomes ligados a Jhony dentro da estrutura administrativa, movimento que provocou forte insatisfação do médico.

Incomodado, ele procurou o governador e passou a sinalizar a possibilidade de rompimento político. O clima chegou ao ponto máximo quando Jhony marcou uma entrevista coletiva para o dia 23 de fevereiro, ocasião em que anunciaria oficialmente a mudança de lado.

A coletiva, porém, nunca aconteceu.

Dias antes, ele cancelou o evento e veio a público afirmar que permanecia “onde sempre esteve”, alegando que ainda mantinha diálogo político. A leitura predominante era de que negociações haviam avançado. Comentava-se que interlocutores do Progressistas, especialmente o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, teriam atuado para conter o rompimento, com a perspectiva de recomposição futura de espaços administrativos após eventual mudança no comando do governo estadual.

O gesto foi interpretado como acomodação temporária da crise.

Mas durou pouco tempo…

O anúncio desta terça-feira demonstra que as tratativas voltaram a fracassar, levando Jhony Bezerra a formalizar sua adesão ao projeto liderado por Cícero Lucena – movimento que o coloca politicamente ao lado de forças tradicionais de Campina Grande que estiveram no campo adversário durante a eleição municipal.

No entorno do governo estadual, a avaliação reservada é de “traição”. Integrantes do grupo governista classificam a decisão como gesto de ingratidão, lembrando que toda a trajetória administrativa e eleitoral do médico foi construída dentro da gestão João Azevêdo.

Como fica a imagem?

Mais do que o impacto imediato no xadrez político, porém, a questão central passa agora pelo efeito da decisão sobre o próprio capital eleitoral de Jhony Bezerra.

Os quase 100 mil votos obtidos em Campina Grande foram conquistados sob um discurso de renovação política e alinhamento com o projeto governista. Ao mudar de posição após semanas de idas e vindas, negociações públicas e recuos sucessivos, o médico deixa aberta uma dúvida inevitável junto ao seu eleitorado.

A pergunta que tende a surgir não é apenas sobre qual lado foi escolhido, mas sobre os critérios da escolha.

Na política, mudanças de campo não são incomuns. O risco aparece quando o eleitor passa a interpretar o movimento menos como convicção e mais como negociação. E, nesse ponto, o desafio de Jhony Bezerra talvez não seja explicar sua decisão aos adversários – mas reconquistar a confiança de parte dos próprios eleitores, que acompanharam, em tempo real, um processo marcado por avanços, recuos e indefinições.

O impacto político real dessa escolha, porém, ainda será medido nas urnas – e, principalmente, na memória do eleitor.

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