quarta-feira, 4 de março de 2026
Entre a Memória e o Algoritmo: os riscos da Inteligência Artificial na preservação da história do Cangaço
09/01/2026 14:07
Por Vandilo Brito Reprodução

Fico extremamente preocupado com o uso indiscriminado das Inteligências Artificiais na manipulação de fotografias antigas, especialmente aquelas relacionadas ao período do Cangaço. Não se trata de negar os avanços tecnológicos ou demonizar a IA, mas de refletir, com responsabilidade, sobre os limites do seu uso quando estamos lidando com memória, história e patrimônio cultural.

Ao “restaurar”, colorizar ou reinterpretar imagens históricas por meio da IA, corre-se um risco sério: o de desprezar a fotografia original como fonte primária e documento histórico. A imagem passa a ser outra coisa — um produto digital recriado, filtrado por algoritmos, escolhas técnicas e até estéticas — que, muitas vezes, não respeita a fidelidade histórica. Em pouco tempo, temo que percamos a referência do original, substituída por versões artificialmente “embelezadas”, mas profundamente afastadas da realidade daquele tempo.

No caso do Cangaço, isso é ainda mais sensível. As fotografias não são apenas imagens; são testemunhos de uma época dura, complexa e marcada por conflitos sociais, políticos e culturais. Cada detalhe — a luz, a sombra, a textura, o desgaste do papel, a imperfeição da lente — faz parte da narrativa histórica. Alterar esses elementos é, de certa forma, reescrever a história sem o devido cuidado, correndo o risco de criar uma memória visual falsa ou romantizada.

Entendo que a IA pode ser uma ferramenta valiosa em diversas áreas: organização de acervos, catalogação, ampliação de acesso, correções técnicas mínimas para preservação digital, desde que o original seja sempre preservado, identificado e respeitado. O problema surge quando a tecnologia deixa de ser auxiliar e passa a substituir, apagar ou relativizar a fonte histórica.

Há, ainda, outro ponto que me inquieta profundamente: o uso da IA em trabalhos que envolvem arte, criatividade e interpretação humana, como a produção literária sobre história, documentários, pesquisas autorais, poesias e ensaios. Esses campos exigem sensibilidade, vivência, intuição e compromisso ético com a verdade histórica. São espaços onde o olhar humano, com suas limitações e emoções, é essencial. Delegar isso às máquinas é empobrecer o processo criativo e enfraquecer o vínculo entre o autor, o tema e o público.

A tecnologia deve servir ao homem, e não o contrário. No campo da história e da arte, especialmente quando falamos de memória coletiva, é preciso cautela, critério e responsabilidade. Preservar o passado não é reinventá-lo ao gosto do presente, mas respeitá-lo em sua autenticidade, mesmo quando ele é imperfeito, duro ou desconfortável.

Essa é uma reflexão necessária. O futuro não pode ser construído à custa do apagamento ou da distorção do passado.

Essa reflexão ganhou ainda mais força em uma recente conversa mantida em um grupo restrito de pesquisadores do Cangaço, composto por apenas onze membros, entre eles Aderbal Nogueira, Ivanildo Silveira, Coronel Otávio e Bismarck Martins de Oliveira. A discussão surgiu a partir do compartilhamento de uma imagem de Lampião e Maria Bonita alterada por Inteligência Artificial. O que mais chamou a atenção foi o desaparecimento do conhecido leucoma no olho direito de Lampião — uma característica física historicamente documentada. Esse detalhe, aparentemente pequeno, evidencia o perigo maior: ao “corrigir” ou “embelezar” a imagem, a IA acaba por apagar marcas reais da história, criando uma versão que nunca existiu. É justamente aí que reside o risco de se perder, pouco a pouco, a referência da originalidade.

O fotógrafo Benjamim Abraão com Maria de Déa (Maria Bonita) e Virgulino Ferreira (Lampião) Imagem original do período do Cangaço retirado da Wikipedia. A fotografia como documento histórico, não como recriação digital.

  • Vandilo Brito – Advogado e pesquisador

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