Lanterna de seu grupo no quadrangular da Série C e sem chances de acesso, o Botafogo-PB enfrenta agora uma cobrança que ultrapassa o fracasso dentro de campo. Jogadores denunciam pagamentos pendentes, enquanto o proprietário da SAF, Fillipe Félix, procura novos investidores para quitar débitos. O cenário coloca sob questionamento a gestão do empresário que, após o primeiro turno presidencial, apareceu nas redes sociais atacando Lula e se apresentando como defensor dos trabalhadores.
Os atletas encaminharam uma carta cobrando a regularização de salários, depósitos do FGTS e despesas básicas relacionadas às viagens do elenco. São obrigações com profissionais que trabalharam pela campanha do clube e que, independentemente do resultado esportivo, têm direito ao cumprimento dos compromissos assumidos.
O próprio Félix confirmou, na segunda-feira (5), o atraso dos direitos de imagem referentes a agosto. A admissão foi registrada pelo ge e reforça que as dificuldades financeiras não se resumem a reclamações externas. O dirigente também anunciou a busca por parceiros, com previsão de um aporte inicial de R$ 2 milhões para quitar débitos com jogadores e funcionários. Para quem espera receber, porém, uma negociação futura não resolve a urgência presente.
Dentro de campo, o desfecho também está distante das expectativas. O Belo chegou à última rodada do quadrangular com apenas dois pontos, na última posição de sua chave e sem possibilidade de subir à Série B. O projeto de acesso terminou em frustração; fora das quatro linhas, a cobrança dos atletas expõe outra dimensão da crise. O insucesso esportivo não pode servir de justificativa para compromissos financeiros pendentes.
É preciso reconhecer os investimentos feitos por Fillipe Félix e sua contribuição para fortalecer o Botafogo. Esse reconhecimento, entretanto, não elimina sua responsabilidade pelos problemas da gestão. O valor investido não substitui salários pagos, obrigações cumpridas e explicações claras. A credibilidade de um empresário também se mede pelo tratamento dispensado às pessoas que trabalham para ele.
Um homem descontrolado
É nesse contexto que o vídeo publicado após a eleição ganha outro significado. Ao anunciar um novo tempo “pro trabalhador, pro empresário”, Félix construiu um discurso que agora precisa ser confrontado com a realidade de seu próprio empreendimento. A defesa pública do trabalhador perde força quando trabalhadores vinculados à sua gestão precisam recorrer a uma carta para cobrar pagamentos.
Na gravação, o empresário afirmou que Lula seria dono da JBS e o homem mais rico do Brasil, sem apresentar provas. A própria companhia identifica a J&F Investimentos como sua acionista controladora. Uma acusação dessa gravidade exige documentação. A expressão “todo mundo sabe”, usada no vídeo, não supre essa ausência.
Félix também afirmou que o número de empresas endividadas teria dobrado em quatro anos, sem indicar fonte ou critério de comparação. Disse que Lula “odiava os pobres” e tratou programas sociais como instrumentos deliberados de manutenção da miséria. Não apresentou, na fala transcrita, dados que sustentassem essas conclusões. Um dirigente que cobra eficiência do poder público deve aceitar a mesma cobrança de precisão e responsabilidade sobre suas próprias declarações.
A afirmação de que Lula teria recebido 90% dos votos nos presídios igualmente veio sem indicação de fonte. Mais grave foi associar indistintamente esses eleitores ao narcotráfico e às facções. Nas eleições de 2026, presos provisórios podem votar, enquanto condenados definitivamente têm os direitos políticos suspensos. Seções em unidades prisionais também podem receber votos de servidores e mesários. O local de votação não autoriza a classificação feita pelo empresário.
O ataque pessoal a Janja completou uma manifestação marcada pela hostilidade. Ao depreciar a primeira-dama como mulher, Félix abandonou qualquer discussão sobre políticas públicas. A ofensa não explica a economia, não melhora o futebol e não acrescenta argumento à disputa eleitoral. Apenas expõe uma conduta incompatível com a responsabilidade de quem comanda uma instituição de grande identificação popular.
Fillipe Félix tem liberdade para escolher seu candidato e criticar o presidente. Deve, igualmente, responder pelas acusações que divulga e pelos compromissos de sua gestão. Neste momento, a explicação mais urgente está no Botafogo: quais pagamentos permanecem pendentes e quando serão regularizados. Para os jogadores e funcionários, o discurso sobre um futuro melhor começa com uma obrigação concreta — receber pelo trabalho realizado.
