O racha público entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro colocou as principais lideranças da direita na Paraíba em uma situação de vulnerabilidade explícita. O senador Efraim Filho, o ex-ministro Marcelo Queiroga e o deputado federal Cabo Gilberto Silva enfrentam agora um desafio político idêntico e ingrato: a necessidade absoluta de se manterem equilibrados em cima do muro nessa disputa.
A revelação pelo Valor Econômico de que Michelle estabeleceu uma lista seleta de apenas 19 candidaturas prioritárias para 2026 – excluindo totalmente a Paraíba – funcionou como o primeiro choque de realidade.
Para o trio paraibano, o recado das urnas e dos bastidores é claro: o “selo de prestígio” sumiu, e tomar um lado nessa briga virou um risco que ninguém ali pode correr.
O tamanho do desafio para cada um
Ficar em cima do muro parece fácil, mas, para as pretensões de Efraim, Queiroga e Cabo Gilberto, o equilibrismo exige nervos de aço:
Marcelo Queiroga (O maior encurralado): Queiroga construiu sua sobrevivência política recente colado na imagem de Michelle Bolsonaro. Em 2025, no auge das crises internas do PL na Paraíba, viajou a Brasília para tirar fotos com ela e demonstrar força local. Agora, se ele endossar o discurso de Michelle contra as alianças pragmáticas do partido, ele desafia diretamente o comando de Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto — os donos da chave do cofre e do tempo de TV do PL para sua candidatura ao Senado.
Efraim Filho (O risco no projeto de Governo): Recém filiado ao PL, Efraim depende visceralmente do eleitorado bolsonarista para pavimentar sua rota rumo ao Palácio da Redenção em 2026. Ele precisa do apoio da militância ideológica (fiel a Michelle), mas não pode se indispor com a ala pragmática (liderada por Flávio), que dita o ritmo das coligações partidárias no Nordeste. Para Efraim, qualquer passo em falso destrói a engenharia de sua aliança.
Cabo Gilberto (O dilema da coerência): Conhecido por sua postura mais combativa e ideológica, o deputado federal é historicamente mais alinhado às teses defendidas por Michelle. No entanto, o parlamentar sabe que comprar essa briga publicamente significa implodir as pontes com a Executiva Nacional do PL. O desafio de Gilberto é segurar o tom sem parecer que abandonou suas bandeiras.
O silêncio como escudo
Há menos de um ano, Michelle Bolsonaro desembarcou em João Pessoa prometendo que a Paraíba “mudaria a sua história” sob a condução desse grupo. Hoje, o cenário mudou drasticamente. Ao focar em palanques específicos e restritos pelo país, a ex-primeira-dama esvaziou o ativo político que o trio exibia com tanto orgulho.
Na prática, a Paraíba descobriu que a proximidade com o topo do clã Bolsonaro também queima as mãos. Se escolherem Michelle, perdem a estrutura partidária controlada por Flávio. Se escolherem Flávio, são carimbados como traidores pela base ideológica.
O desafio da direita paraibana para os próximos meses não é avançar, mas sim garantir que ninguém caia do muro antes de 2026.
