João Pessoa, segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Dia Nacional do Livro: Mercado infantojuvenil cresce no Brasil e abre espaço para novas narrativas
28/10/2026 09:00
Redação ON Reprodução

O que os livros infantis têm a dizer às crianças de hoje? Às vésperas do Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, a pergunta ganha relevância diante das transformações no mercado editorial e dos desafios de formar novos leitores. Nesse cenário, o escritor e historiador Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), estreia na literatura infantil com Cara de Nada, lançado pela Editora Mondru e ilustrado por Tiago Duarte. A obra aborda identidade, autoestima e pertencimento a partir de uma narrativa conectada ao universo e aos interesses da infância contemporânea.

O mercado editorial brasileiro apresenta sinais de expansão. Pesquisa internacional realizada pela NielsenIQ BookData e pela GfK Entertainment, com base em dados de vendas de livros impressos em pontos de venda de 19 países no primeiro semestre de 2026, apontou o Brasil entre os mercados com maior crescimento, com alta de 12,6%. O cenário também dialoga com os dados do Panorama do Consumo de Livros, que indicam a entrada de quase 3 milhões de novos compradores de livros no país em 2025.

Para Ademir Luiz, a compreensão da infância e de suas necessidades é resultado de um processo histórico. Doutor em História, com especialização no período medieval, o autor ressalta que a concepção contemporânea de infância, associada à proteção, aos direitos e ao reconhecimento das particularidades das crianças, é uma conquista relativamente recente.

“A infância, e por consequência a proteção da infância e mesmo o direito de ser criança, é uma conquista da modernidade. Por tudo isso, é fundamental que a criança tenha livros pensados especialmente para elas. Creio que não só é possível quanto é fundamental conciliar leitura, esportes e jogos eletrônicos no universo do imaginário infantil. De preferência dialogando”, afirma o escritor e historiador.

A decisão de escrever para o público infantil nasceu de uma inquietação pessoal. Como gestor cultural e crítico literário, Ademir observou que algumas obras parecem subestimar a capacidade de compreensão das crianças, apresentando narrativas pouco convincentes e universos ficcionais artificiais.  “Alguns livros me chamavam a atenção pela forma como duvidavam da inteligência de seus leitores, com narrativas incongruentes e construções de mundo artificiais. Simplesmente não são convincentes. Um livro infantil precisa ser tão caprichado quanto um livro para adultos”, explica.

Entre suas referências estavam A Parte que Falta e A Parte que Falta Encontra o Grande O, do escritor e ilustrador norte-americano Shel Silverstein, despertando no autor o interesse em desenvolver uma narrativa infantil fundamentada também em um conceito estético, no qual texto e imagem fossem concebidos como elementos inseparáveis. “São obras simples, diretas e, ao mesmo tempo, brilhantes. E o mais importante: os dois livros têm um conceito estético. Certo dia, também pensei em um conceito estético e achei que poderia contribuir com o gênero infantil. Resultado: escrevi o livro. Nele, texto e arte são integrados, inseparáveis. Fiz os esboços da arte e convidei o amigo Tiago Duarte para fazer os desenhos definitivos. Minha intenção é fazer com que as crianças leiam o livro, entendam sua narrativa, pesquem muitas de suas piadas, mas, ao mesmo tempo, percebam que ele possui outras camadas”, explica.

Ao falar sobre suas expectativas para o livro, Ademir destaca o desejo de estabelecer uma conexão com crianças cujos interesses culturais ultrapassam os universos tradicionais dos contos de fadas e das narrativas moralizantes. “Espero que Cara de Nada encontre seu público. Que as pessoas entendam sua proposta de conversar com crianças contemporâneas, que não se importam muito com contos de fadas ou histórias moralizantes, mas que assistem a filmes da Marvel, Star Wars, colecionam álbuns da Copa, andam de skate e jogam videogame, além de muitas outras coisas”, afirma.

A experiência também despertou o desejo de continuar explorando o universo infantil em projetos futuros, inclusive por meio de narrativas que contemplem diferentes experiências e perspectivas.  “É um livro para meninos? Talvez. O que significa que o próximo projeto talvez possa ser um livro para meninas. Eu adoraria escrever”, antecipa o autor.

Sobre o livro Cara de Nada

Publicado pela Editora Mondru, Cara de Nada, aborda de maneira lúdica e sensível a complexa jornada de construção da identidade na infância. A narrativa acompanha a trajetória de um menino que, desde o nascimento, sente que tem uma “cara de nada”, comparando-se a um “zero bem redondinho”. A partir dessa percepção, a história explora comparações, inseguranças e pressões cotidianas enfrentadas pelas crianças, convidando os leitores a refletir sobre a maneira como cada indivíduo enxerga a si mesmo e é percebido pelos outros.

Com linguagem acessível e instigante, a obra questiona as percepções externas e valoriza a essência individual, contrapondo-se à sensação de ser apenas mais um entre bilhões de pessoas. Ao longo da narrativa, o protagonista é alvo de comparações: ora é associado aos pais e tios, ora a situações inusitadas, como ter “cara de joelho”.

O livro também rompe com estereótipos tradicionais de masculinidade, como a máxima de que “homem não chora”, ao permitir que o menino expresse livremente suas emoções e seus dramas pessoais. Nesse percurso, suas lágrimas se transformam em um mar no qual ele pode “nadar com sua cara de nada”, imagem que confere à narrativa uma dimensão poética e sensível.

Uma das particularidades da obra é o uso de metáforas matemáticas para discutir o valor individual. Na história, o personagem descobre que o zero parece insignificante quando está posicionado à esquerda, mas, colocado à direita, pode transformar um simples um em mil. A descoberta funciona como uma metáfora sobre autoestima, pertencimento e reconhecimento do próprio potencial.

Outra transformação simbólica ocorre quando o menino deixa de recorrer às máscaras utilizadas nas brincadeiras de pirata ou policial e passa a usar óculos. A mudança representa uma nova maneira de enxergar o mundo e a si mesmo, reforçando a ideia de que a identidade não precisa ser escondida nem definida exclusivamente pelo olhar alheio.

Ao propor uma reflexão sobre a maneira como as crianças constroem a percepção de si mesmas, Cara de Nada se aproxima de questões importantes para famílias, educadores e mediadores de leitura. A obra também oferece uma oportunidade para conversar sobre diferenças, emoções e autoestima, valorizando a literatura como espaço de imaginação, descoberta e reconhecimento individual.

Serviço

Livro: Cara de Nada
Autor: Ademir Luiz
Ilustrações: Tiago Duarte
Editora: Mondru
Gênero: Literatura infantil
Lançamento: 14 de outubro de 2026
Local do lançamento: União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO)

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