sexta-feira, 17 de abril de 2026
Da expansão ao recuo: Paraíba antecipa crise que hoje assombra a Hapvida
17/04/2026 05:25
Redação ON Reprodução

A crise da Hapvida, uma das maiores operadoras de saúde do país, ganhou contornos nacionais com a divulgação de uma dura carta da Squadra Investimentos, mas, para quem acompanha o cenário empresarial da Paraíba, o enredo já parecia conhecido – e com sinais claros de desgaste há algum tempo.

A Squadra Investimentos, conhecida por ter antecipado a fraude do IRB em 2020, acusa a empresa de protagonizar uma das maiores destruições de valor do mercado brasileiro. Desde o IPO, em 2018, as ações da Hapvida despencaram cerca de 85%, enquanto o Ibovespa seguiu caminho oposto, acumulando alta expressiva. O contraste virou combustível para uma ofensiva pública que promete esquentar ainda mais o ambiente entre acionistas.

Na prática, o que hoje se traduz em números frios na Bolsa já havia se manifestado, de forma mais silenciosa, em decisões estratégicas que atingiram diretamente a Paraíba.

O recuo silencioso na Paraíba

Antes mesmo da pressão aberta da Squadra por mudanças profundas, a Hapvida já vinha recuando em frentes que, inicialmente, simbolizavam sua ambição de expansão. Um dos exemplos mais visíveis foi o investimento no setor de comunicação no estado, por meio do Sistema Opinião.

O projeto chegou com a promessa de consolidar um dos maiores grupos de mídia do Nordeste, mas acabou se tornando um capítulo de frustração. Nos últimos meses, o grupo promoveu a venda de ativos importantes na Paraíba, incluindo a TV Manaíra e a TV Borborema, além de rádios tradicionais como a Borborema e a FM O Norte.

Esse movimento de saída reforça, na prática, a principal crítica feita pela Squadra: a de que a empresa se perdeu em aquisições fora do seu foco principal, investindo em áreas onde não tinha expertise e comprometendo recursos que poderiam ter sido direcionados ao seu negócio central, a saúde.

Enquanto isso, o que deveria ser o coração da operação começou a dar sinais de desgaste, com perda de qualidade percebida e redução de base de clientes em algumas regiões.

A conta que não fecha

Se a estratégia é questionada, a remuneração da alta cúpula se tornou o ponto mais sensível da crise. Segundo a carta da gestora, mesmo com a forte desvalorização das ações, o CEO da companhia recebeu cerca de R$ 110 milhões em apenas dois anos, enquanto o conselho administrativo garantiu quase a totalidade dos bônus previstos.

A desconexão entre o desempenho da empresa e a recompensa dos executivos acendeu o alerta entre investidores e abriu uma disputa direta pelo controle das decisões estratégicas. A Squadra, que detém cerca de 7% do capital votante, quer indicar novos conselheiros e forçar uma mudança de rumo.

Entre as propostas estão o retorno ao foco nas regiões onde a Hapvida historicamente é mais forte — especialmente Norte e Nordeste — e a venda de ativos considerados problemáticos, tanto em áreas geográficas onde houve perda de clientes quanto em negócios paralelos que não trouxeram eficiência.

O que está em jogo agora é mais do que uma simples reestruturação. Trata-se de uma tentativa de recuperar a confiança do mercado após uma sequência de decisões que, na avaliação de investidores, comprometeram o valor da companhia.

E, nesse contexto, a Paraíba surge como um retrato antecipado do problema. O que começou como um recuo pontual no estado pode, agora, se transformar em uma reconfiguração nacional. O desfecho dessa disputa, que deve ganhar novos capítulos na assembleia de acionistas marcada para o fim do mês, indicará se a empresa conseguirá reagir ou se continuará sendo citada como um exemplo de como crescer sem foco pode custar caro demais.

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