A ansiedade por uma série, o lançamento de um jogo ou o anúncio de uma turnê pode aparecer nas redes sociais com a mesma palavra usada para descrever uma experiência de sofrimento psíquico. No vocabulário da cultura pop, expressões como “estou surtando” e “não aguento mais esperar” fazem parte da comunicação cotidiana de fãs que compartilham expectativas, reagem a novidades e mobilizam comunidades em torno de seus interesses.
Esse uso da linguagem foi observado em um levantamento realizado por Karol Oliveira e Clarissa Prado, com apoio da Polis Consulting e uso da plataforma Brandwatch. O estudo analisou conversas públicas no X (antigo Twitter) durante setembro de 2025 e identificou diferentes contextos em que termos relacionados à saúde mental aparecem nas interações digitais, inclusive fora de situações associadas a sintomas ou transtornos.
Entre os conteúdos classificados, 115 publicações foram relacionadas ao entretenimento, categoria que reuniu referências a artistas, eventos, programas de televisão, esportes, jogos e outros temas da cultura pop. Nesse universo, a palavra “ansiedade” apareceu em manifestações de expectativa por acontecimentos desejados, mobilizações de fandoms e discussões sobre os rumos de séries e novelas.
O resultado ajuda a observar como palavras que também têm significado clínico podem assumir funções diferentes na comunicação cotidiana. Em determinados contextos, expressam entusiasmo e antecipação; em outros, descrevem angústia, sofrimento ou preocupação genuína.
Quando esperar por um lançamento vira assunto coletivo
A expectativa por acontecimentos da cultura pop pode ultrapassar o interesse individual e se transformar em uma experiência compartilhada. Fãs comentam trailers, acompanham anúncios, discutem teorias, organizam campanhas de votação e mobilizam comunidades para apoiar artistas ou divulgar lançamentos.
O levantamento identificou esse movimento em diferentes momentos de setembro de 2025. Um dos picos de conversas ocorreu em torno do lançamento de “Ordem Paranormal: Enigma do Medo”, associado a manifestações do criador de conteúdo Cellbit. Outro aumento, em 11 de setembro, reuniu assuntos distintos do entretenimento, como a expectativa por jogos de futebol, o anúncio do filme “Demon Slayer: Castelo Infinito”, a coletiva de imprensa de “A Fazenda 17” e a mobilização de fãs para a turnê EngLot Infinity Tour.
Nesses contextos, a ansiedade aparece principalmente como antecipação de algo aguardado. A expressão não descreve necessariamente um quadro clínico, mas comunica a intensidade do envolvimento com um acontecimento e ajuda a criar identificação entre pessoas que compartilham o mesmo interesse.
Na amostra analisada pelo estudo, a expectativa foi a emoção mais associada às menções sobre ansiedade, representando 61,7% dos casos classificados nessa categoria. O levantamento também identificou manifestações de tristeza, que corresponderam a 17,3% das menções. Os percentuais descrevem a classificação feita pelos pesquisadores, não a prevalência dessas emoções entre os usuários da plataforma.
A linguagem dos fãs também revela conflitos e preocupações
O ambiente de fandoms não é formado apenas por celebração. As conversas também incluem disputas entre comunidades, críticas a decisões criativas, reclamações sobre os rumos de narrativas e discussões sobre o impacto da indústria cultural na vida de artistas.
Segundo o estudo, as manifestações relacionadas ao entretenimento incluíram desde mobilizações coletivas para votações até embates entre grupos de fãs. Também apareceram preocupações com o adoecimento de celebridades e referências a condições como ansiedade crônica, burnout e isolamento social.
Essa diversidade mostra por que o contexto é fundamental para interpretar a linguagem digital. Uma expressão intensa pode funcionar como hipérbole para comunicar empolgação, mas termos semelhantes também podem aparecer em relatos de sofrimento ou preocupação real. A palavra, isoladamente, não permite distinguir essas situações.
Para Gildevan Carvalho, CEO da Polis Consulting, a análise dessas conversas permite observar como os significados se transformam de acordo com o contexto em que são utilizados.
“A análise mostra que a palavra ansiedade circula entre significados muito diferentes nas redes sociais. Ela pode aparecer tanto para expressar a expectativa por algo desejado quanto para descrever uma experiência real de sofrimento. Observar esse contraste ajuda a entender como a linguagem da saúde mental está sendo incorporada ao vocabulário cotidiano”, afirma.
O que as redes mostram sobre a linguagem das emoções
O levantamento analisou 1.937.018 menções coletadas no X entre 1º e 30 de setembro de 2025. Para a classificação dos conteúdos, os pesquisadores trabalharam com uma amostra de 665 publicações, examinadas para identificar temas, emoções e contextos de uso de expressões relacionadas à saúde mental.
A análise não buscou medir a incidência de transtornos mentais na população nem permite concluir que o uso cotidiano dessas palavras represente banalização do sofrimento psíquico. Seu foco foi observar como os termos aparecem em conversas espontâneas e como seus sentidos variam conforme o assunto discutido.
Na cultura pop, a linguagem emocional também funciona como forma de pertencimento: expressões compartilhadas ajudam fãs a demonstrar entusiasmo, reconhecer experiências comuns e participar de conversas coletivas. Mas o mesmo vocabulário pode adquirir outros sentidos quando o contexto envolve sofrimento, preocupação ou relatos pessoais.
A diferença não está apenas na palavra escolhida, mas na situação em que ela aparece. Nas redes, compreender o que alguém quer dizer exige olhar para além do termo isolado e considerar o contexto, o tom e a conversa em que ele está inserido.

