Apresentado nas redes sociais como um paraíso de impostos baixos e uma alternativa para brasileiros insatisfeitos com o país, o Paraguai enfrenta um choque que expõe os limites dessa promessa. A intervenção no Ueno Bank, instituição com cerca de 3 milhões de clientes, interrompeu serviços bancários e deixou correntistas sem acesso ao dinheiro. O episódio também ganhou dimensão política, com protestos e cobranças ao governo de Santiago Peña.
Para quem imaginava encontrar uma espécie de “nova Suíça” ao atravessar a fronteira, o caso oferece um alerta: mudar de país ou manter recursos em moeda estrangeira não elimina o risco de problemas na instituição que guarda o dinheiro.
O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou em 3 de novembro a abertura de um procedimento de resolução do Ueno, decidido na véspera, depois de identificar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido. A medida busca administrar a situação da instituição e proteger os depositantes. Aplicativo, cartões e demais serviços foram suspensos.
Embora o episódio seja descrito como uma quebra, o ato oficial é a abertura desse procedimento. Isso não significa que todos os clientes perderam suas economias, nem permite afirmar que os valores acima da garantia estejam definitivamente perdidos.
O que se sabe sobre os brasileiros
A crise ocorre em um momento de interesse de brasileiros pela mudança para o Paraguai. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 1º de novembro registrou o aumento das buscas por informações sobre residência no país após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. O destino também vem sendo promovido por influenciadores e elogiado por apoiadores de Flávio Bolsonaro, com argumentos que misturam insatisfação política, tributação e custo de vida.
Há, entretanto, uma distância entre esse movimento e a afirmação, difundida nas redes, de que bolsonaristas que foram “fugir do comunismo” agora estão nas filas do Ueno para tentar recuperar dólares.
Até o momento, não foi localizado um levantamento oficial sobre quantos brasileiros foram atingidos, quanto mantinham no banco ou quais eram suas motivações para viver ou investir no Paraguai. A cobertura da imprensa da fronteira também ressalta a ausência desse balanço. A presença comercial do Ueno em Ciudad del Este torna o caso relevante para moradores, trabalhadores e empresários brasileiros que utilizem seus serviços, mas não autoriza atribuir um perfil político aos prejudicados.
Dinheiro protegido, mas com limites
Segundo o BCP, a garantia dos depósitos é de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa física ou jurídica, em cada instituição. O limite considera o conjunto dos depósitos elegíveis, e não cada conta separadamente. O órgão também anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, com as etapas seguintes a serem comunicadas oficialmente.
As regras do fundo abrangem residentes e não residentes e contemplam depósitos em moeda estrangeira. Portanto, a nacionalidade brasileira, por si só, não exclui o cliente da proteção. O enquadramento depende das condições do depósito e das regras aplicáveis.
Esse é um dos pontos centrais para quem transferiu recursos ao país vizinho: ter uma conta em dólar não assegura acesso imediato ao dinheiro quando o banco deixa de operar.
Crise chega ao governo
A repercussão ultrapassou as agências bancárias. Houve manifestações de correntistas e aposentados em Assunção, além de uma vigília nas proximidades do Congresso com pedidos de devolução dos recursos e de julgamento político do presidente Santiago Peña, segundo a agência EFE.
O caso tem conexões que ampliam o desgaste do governo. Peña foi investidor da holding proprietária do Ueno até março de 2025. Já Carlos Carvallo, que presidiu a instituição antes de assumir o Banco Central, apresentou sua renúncia à autoridade monetária a pedido do presidente, conforme noticiaram Financial Times e Reuters.
O BCP sustenta que o problema é específico do Ueno e não representa uma condição generalizada do sistema financeiro paraguaio. Essa ressalva impede tratar a intervenção em um banco como prova de que todo o sistema do país entrou em colapso.
Ainda assim, o episódio expõe a fragilidade de vender um destino como refúgio financeiro sem riscos. Brasileiros podem ter razões legítimas para morar, empreender ou investir no Paraguai. O equívoco está em transformar preferência política em garantia de segurança patrimonial. Governo de direita, impostos menores e saldo em dólar não substituem fiscalização, transparência e solidez bancária.

