quinta-feira, 19 de março de 2026
Zezé Rocha – legado e história
19/03/2026

Numa terra em que político costuma ser visto com desconfiança, Maria José Rocha Lima, a Zezé Rocha, é a prova viva de que alguém pode atravessar a atividade política sem se enlamear. Talvez por isso mesmo sempre tenha sido considerada estranha nos bastidores. Enquanto muitos se adaptavam às manobras e conchavos, Zezé parecia deslocada, como se não tivesse aprendido a língua secreta do poder. Houve quem a tratasse como ingênua. Na verdade, ela apenas se recusava a aprender o que não queria praticar.
Tão logo se reelegeu para mais um mandato de deputada estadual na Bahia, anunciou que não disputaria novos cargos. Para muitos, aquilo soou incompreensível. Para quem a conhece, foi apenas coerência. Zezé nunca escondeu que preferia a militância sindical e os movimentos populares ao ambiente do parlamento. Foi nas ruas, nas assembleias de professores, nas reuniões com pais e alunos, que se tornou uma das maiores lideranças de massa da história da Bahia.
Mesmo sem vocação para a liturgia parlamentar, fez do mandato um instrumento de grandes realizações. Levou à Assembleia Legislativa da Bahia nomes que marcaram a educação e a cultura do mundo, como Paulo Freire, Gilberto Gil e Emilia Ferreiro. Propôs e concedeu a Medalha Libertador da Humanidade ao líder sul-africano Nelson Mandela, gesto que simboliza bem o tipo de política que sempre defendeu: a que olha para a dignidade humana antes de olhar para as conveniências.
Também ajudou a garantir a sede da Hora da Criança, em Salvador, contribuindo para a continuidade do grande projeto educacional de Adroaldo Ribeiro Costa e Josélia Santos, a inesquecível Joca. Mesmo sendo adversária ferrenha do velho Antônio Carlos Magalhães, apresentou emendas que permitiram a reforma de mais de mil escolas baianas, porque nunca confundiu divergência política com abandono do interesse público.
Como liderança popular, Zezé protagonizou um dos maiores movimentos em defesa da educação pública no Brasil. À frente da Marcha Anísio Teixeira, percorreu mais de duzentos municípios da Bahia levando a Tocha da Educação, mobilizando professores, pais e estudantes numa jornada que entrou para a história da luta educacional.
Na APLB, liderou a transformação da associação em sindicato, ampliando de pouco mais de mil para cerca de quarenta e cinco mil filiados em apenas cinco anos, feito raro na história do movimento sindical brasileiro. Como assessora técnica, teve participação nas principais leis educacionais do país, colaborando em debates que resultaram na LDB, no Fundef, no Fundeb e também no Marco Legal da Primeira Infância, ao lado da deputada Iara Bernardi.
Aos 73 anos, Zezé Rocha continua inquieta. Escreve, debate, orienta, propõe. Não aprendeu a ficar em silêncio diante das injustiças nem a descansar enquanto houver algo a construir.
Porque há pessoas que fazem carreira na política.
E há aquelas que fazem história.
Zezé pertence à segunda categoria — e sabe que ainda não é hora de encerrar o bom combate nem de guardar a fé.

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