A personal trainer Kely Moraes viveu um episódio que escancara o nível de ignorância e preconceito que ainda domina certos ambientes. Na manhã desta segunda-feira (26), ao sair do banheiro feminino de uma academia no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, ela foi agredida verbalmente por uma mulher — e depois pelo marido da agressora — simplesmente por “parecer trans”. Só que Kely é mulher cisgênero.
Explicando de forma didática: mulher cis é aquela que foi designada mulher ao nascer e se reconhece assim ao longo da vida. Mulher trans é quem foi designada homem ao nascer, mas se identifica e vive como mulher. Simples. E nenhuma das duas merece ouvir desaforo por usar o banheiro condizente com sua identidade de gênero. Ninguém merece.
O caso foi registrado em vídeo e viralizou nas redes sociais. Kely relatou que havia caído de moto e entrado no banheiro da academia para se limpar. Ao sair, foi abordada pela aluna com a frase: “Esse banheiro não é pra você”. Ao responder com um “por quê?”, ouviu: “Você é trans, mas é homem”.
O marido da agressora não ficou atrás. Acompanhou a violência verbal com violência simbólica, bloqueando a entrada da academia para impedir Kely de retornar. Detalhe: ela estava ali trabalhando. Dando aula. Ganhando a vida.
A coluna Sem-Vergonha não tolera esse tipo de covardia. Seja com pessoas trans, seja com cis. O que aconteceu com Kely é duplamente absurdo: primeiro, por ser vítima de um preconceito que não lhe dizia respeito; segundo, por mostrar que, mesmo quando a suposição está errada, a violência se impõe como reflexo automático do preconceito.
A academia Selfit disse que repudia qualquer tipo de discriminação, mas ainda não se sabe que medidas tomou diante da agressão sofrida por uma de suas profissionais. Esperamos que sejam exemplares.
No mais, fica a lição para quem ainda vive em 1920: se a presença de alguém no banheiro te incomoda mais do que a sua própria ignorância, o problema é com você.