quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Violência doméstica deixou de ser um problema para fora da empresa
11/08/2026

Mesmo após quase duas décadas de vigência da Lei Maria da Penha, muitas organizações ainda não possuem protocolos para acolher colaboradoras vítimas de violência doméstica nem orientações claras para gestores e equipes de recursos humanos. Especialistas alertam que a falta de preparo compromete a saúde mental, afeta o clima organizacional e a produtividade, além de ampliar riscos jurídicos e trabalhistas para as empresas.

Jéssica Palin Martins, advogada e psicóloga, afirma que a violência doméstica produz reflexos que ultrapassam a vida pessoal da vítima e chegam ao ambiente de trabalho. Para a especialista, empresas que ignoram essa realidade tendem a responder de forma improvisada justamente quando a colaboradora mais precisa de apoio.

“A violência doméstica não termina quando a vítima chega ao trabalho. Muitas vezes, é justamente ali que aparecem os primeiros sinais de que algo está errado. O acolhimento não significa invadir a vida privada da colaboradora, mas oferecer um ambiente seguro e preparado para agir dentro dos limites legais”, afirma a advogada.

Além dos impactos individuais, situações de violência doméstica podem refletir diretamente na rotina das organizações, com aumento do absenteísmo, alterações de comportamento, queda de desempenho e dificuldades de relacionamento entre equipes. Para a psicóloga, esses fatores exigem preparo das lideranças e políticas claras de acolhimento.

A discussão ganhou ainda mais relevância após a publicação da Lei nº 14.831/2024, que criou o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental, e da atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que passou a incluir os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Embora tratem de temas distintos, ambas reforçam a necessidade de as empresas estruturarem práticas preventivas voltadas ao bem-estar dos trabalhadores.

Segundo a especialista em saúde mental corporativa, um dos erros mais comuns é acreditar que qualquer iniciativa de acolhimento representa interferência na vida privada da colaboradora. “A empresa não deve substituir o papel das autoridades nem conduzir investigações. Sua responsabilidade é criar condições para que a colaboradora seja acolhida, tenha acesso à informação e encontre um ambiente de trabalho que contribua para sua proteção e dignidade”, ressalta Jéssica.

O problema começa quando a empresa não sabe como agir

Segundo Jéssica, algumas medidas podem ser adotadas para oferecer suporte às colaboradoras sem ultrapassar os limites legais.

  • Criar um protocolo interno. Definir procedimentos para que RH e lideranças saibam como agir diante de um relato de violência.
  • Capacitar gestores. Preparar as lideranças para identificar sinais de alerta, acolher a colaboradora e realizar os encaminhamentos necessários.
  • Preservar a autonomia da vítima. A empresa deve oferecer orientação e apoio, sem tomar decisões em nome da colaboradora.
  • Garantir confidencialidade. O caso deve ser tratado apenas pelas pessoas diretamente envolvidas, evitando exposição e revitimização.
  • Integrar o acolhimento às políticas de saúde mental. Protocolos de apoio devem fazer parte das estratégias de prevenção de riscos psicossociais e da gestão de pessoas.

Para a advogada e psicóloga, o maior desafio das empresas não é apenas conhecer a legislação, mas transformá-la em procedimentos práticos. “As organizações já possuem protocolos para diversas situações de risco. A violência doméstica também precisa fazer parte desse planejamento. Empresas preparadas conseguem acolher melhor, proteger suas equipes e atuar com mais segurança jurídica”, conclui Jéssica Palin.

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