Firmo Justino fala em sua crônica de uns caranguejos que deixavam a lama do Sanhauá e vinham pelas suas próprias patas se oferecer à freguesia da ladeira da rua da República. Firmo se fia no depoimento de Eudes Limeira, que abria a porta de casa à caranguejada, mandando-a entrar para o almoço ou a cervejada dos fins de semana. Eram desnecessários, nessa versão, os vendedores de então do saboroso crustáceo.
Não é fantasia de Eudes, amigo que conheci garoto traquinando nas calçadas, na mesa e no sótão do Aliança Hotel, face a face com a estação, de cujas vizinhanças a irmã Maria José Limeira foi-se inspirar para escrever o melhor conto da literatura paraibana.
Não é fantasia porque o finado Alberto Abath, que não mentia,
estranhou no filme de Ipojuca a luta atroz dos pescadores para arrancar da lama as cordas de caranguejo que saíam vendendo na rua. Abath não entendia pra que tanta luta, se os bichos andavam passeando pelas ladeiras do Varadouro, oferecendo-se às caranguejadas de todas as cozinhas do Porto do Capim e até a Maciel!
Por isso achava que o filme, em vez de documentário, era pura ficção. “Essa briga é fantasia dos meninos de Alaíde – os meninos eram ninguém menos que Paulo e Ipojuca Pontes – pois eles mesmos, quando moravam nos domínios da Hospedaria Comercial, lá na Gama e Melo, mandavam os caranguejos entrar para o almoço deles, isso sem qualquer esforço que se pareça com o da fita”.
Era o tempo em que não se vendia manga em João Pessoa. O mesmo Abath contava que apareceu um menino vendendo mangas em Tambaí e todos que o chamavam era para botar mais mangas no seu balaio (leve mais estas, meu filho!) a rua inteira se libertando das que despencavam no quintal. Não suportando o peso, o moleque terminou abandonando o balaio com tudo que arrecadara antes de atingir o fim da rua.
Faz muito tempo, isso.
Era de manga que a Casa do Estudante alimentava a partida dos governadores, prefeitos, senadores, deputados, médicos e advogados para o currículo, a biografia e o cenário de hoje. Na madrugada, Dorgival não lanchava menos de vinte/vinte e cinco mangas, isso mesmo por temer as advertências do velho Melquíades de que não se deve ir para a cama de estômago pesado.
Do Róger a Jaguaribe, as mangas caíam sem dono. João Pessoa era a Vila, a Vila que eu ouvia Pinta Cega bradar nas batalhas campais entre o Treze e o Auto ou Botafogo. O grito ecoa ainda em meus ouvidos: “Caran-guejo não faz gol, amarelos da Vila”.
Nesse tempo eu era da Serra, da Liverpool brasileira, do acostamento de placas nacionais em busca de agave e algodão, e estava muito longe de ser cooptado pelos caranguejos e mangas desta remansosa Vila do finado João.