quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Ucrânia: paz ou rendição?
13/01/2026

O ano de 2025 chegou ao fim com desdobramentos políticos importantes. No plano doméstico, a prisão de Bolsonaro antecipou o fim daquele que foi a principal estrela da extrema-direita tupiniquim. Encarcerado, o capitão-presidente já não passa de um “messias” decaído, um pobre diabo cujo espólio será disputado por seus filhos, bem como por tarcísios, caiados, nikolas de toda sorte. Já no plano internacional, “findo” o conflito entre o Hamas e Israel, assistimos a mais um capítulo da guerra russo-ucraniana. Será o último?

Às vésperas de seu quarto ano e após um novo ataque maciço de drones russos, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, enviou uma mensagem ambivalente ao mundo: um plano de paz para acabar com o conflito está “90% pronto”. Mas a fatia decisiva do acordo, os 10% restantes, envolve “questões espinhosas” e, a seu juízo, “determinará o destino da paz, o destino da Ucrânia e da Europa”. Os pontos que emperram as negociações lideradas pelos Estados Unidos estão ligados a questões territoriais e à segurança, em um momento em que as tropas russas mantêm forte pressão militar no Leste.

Enquanto forças ucranianas na linha de frente focam em sobreviver, diplomatas tentam costurar um acordo. Há duas grandes dificuldades. A primeira é a posse de territórios. A Ucrânia ainda controla cerca de 25% da região de Donetsk e a Rússia insiste em anexar todo o Donbas. Zelensky propôs uma zona desmilitarizada, vigiada por forças internacionais, mas Vladimir Putin exige a conquista total. A segunda é o futuro da maior usina nuclear da Europa, em Zaporizhzhia, ocupada desde março de 2022. Enquanto os Estados Unidos sugerem uma administração conjunta entre os três países, a Rússia alega que apenas ela pode garantir a segurança do local. A usina não produz energia há mais de três anos e sua reativação exigirá investimentos consideráveis.

Além da soberania sobre as terras, a Ucrânia também deseja manter suas Forças Armadas com 800 mil soldados, algo a que a Rússia se opõe. Por fim, o país também busca garantias de segurança para o país e para o próprio Zelensky, cuja batata está assando. Afinal, na frente interna, Zelensky enfrenta o maior escândalo de corrupção de seu governo: uma investigação de 15 meses sobre um suposto desvio de US$ 110 milhões (cerca de R$ 545 milhões) na estatal de energia nuclear Energoatom. O esquema envolveria o produtor Timur Mindich, ex-sócio e amigo do presidente, que estaria foragido em Israel.

A corrupção persistente inclusive é um dos principais entraves para a futura entrada da Ucrânia na União Europeia e ameaça a reconstrução do país, estimada em US$ 800 bilhões. Todavia, o que assusta os aliados europeus não necessariamente apavora os americanos. Na verdade, para os Estados Unidos, que financiarão o grosso da reconstrução ucraniana, o que mais importa é o solo fértil do país e suas riquezas minerais, inclusive suas terras raras. Além disso, o fim das hostilidades entre russos e ucranianos será celebrado como uma vitória da paz, capaz de catapultar Donald Trump para a glória de um Nobel.

Na véspera do Ano Novo, Zelensky precisou responder a um ataque russo que matou 27 pessoas em um café na região ocupada de Kherson. O presidente usou o episódio para cobrar dos aliados o envio urgente de mais sistemas de defesa aérea, mas, objetivamente, o ataque escancara que as forças ucranianas estão exauridas, que seus sistemas de defesa são precários e que a segurança do país é frágil. Segundo Nikolai Babchuk, um soldado ucraniano supostamente detido pelos russos quando tentava fugir de Krasnoarmeisk, as condições de combate e víveres são cada vez mais precárias, como precária tem sido a rotação de soldados no front. Já não há reposição, nem para os equipamentos, nem para as pessoas. Faltam armas, munições, água, comida e soldados aptos para lutar.

Enquanto negocia, Zelensky tenta reforçar uma posição enfraquecida. Todavia, o presidente insiste em afirmar que não aceita qualquer acordo: “Queremos o fim da guerra — não o fim da Ucrânia”. A próxima etapa diplomática será uma reunião de Zelensky com líderes europeus na França, provavelmente em 06 de janeiro, para tentar destravar os tais 10% que podem definir o fim do conflito.

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Renata Medeiros — Mestre em ciência política, advogada;
Lier Pires Ferreira
— PhD em Direito (UERJ). Pesquisador do NuBRICS/UFF.